Lista para 2002
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quinta-feira, 03 de janeiro de 2002
Maranúbia Barbosa 
Último dia do ano, Calçadão do centro de Londrina. Se não fosse o peso, três ou quatro sacolas penduradas nos braços, ela teria alcançado o ônibus coletivo linha 202-Roseira, que passou assim que ela pôs os pés no ponto. Esperar mais 20 minutos até que nem era o problema. Ela estava até acostumada. O duro é que não havia lugar para sentar e descansar as canelas. Que remédio, pensou ela, se recostando no pilar e depositando aos pés as sacolas. Tirou da bolsa um bloquinho e resolveu escrever uma lista, o passatempo preferido para o tempo de espera. Dessa vez, faria uma lista das coisas que esperava que acontecessem em 2002.
A primeira da lista: ônibus vazio, com bancos a escolher. Chegar no ponto na hora, nem um minuto a mais e nem a menos. Que em 2002 o cobrador continue paciente, colando os passes na folha de jornal, sem pressa. Ver que ele se detém por um instante para ler os classificados do jornal e sonhar com o carro novo, mesmo com as poucas chances de tê-lo. Que o motorista continue desejando e retribuindo o bom dia largo, de coração. Que ele gentilmente pare o coletivo, quando o passageiro chega atrasado e insiste em acenar com a mão. Ir ao restaurante vegetariano e encontrar o dono, chinês, com a cordialidade milenar dos orientais. Comer o bolinho primavera como se fosse o último, não apenas daquela refeição, mas do ano, do século, da vida. Ver de novo na tela do Cine Ouro Verde aqueles filmes especiais, que só podem ser vistos lá. De preferência, que o primeiro filme exibido esse ano fosse a reprise da poética imagem de Caminho Para Casa, da filmografia chinesa da melhor qualidade. Continuar tendo olhos para ver e ouvidos para escutar, mais do que para falar. Ter pernas para correr do cachorro, já nosso conhecido, mas que insiste em disparar na carreira, mal vê a gente passar. Estar viva para ver de novo em 2002 o escândalo flamejante dos flamboyants. Que os dois Beatles que restaram não partam em 2002, e nem nunca mais. Que os sonhos que eles sonharam sejam eternos, que não acabem jamais. Chegar em casa cansada, abrir a porta e ver que tudo está no lugar: o porta-chaves com os dizeres Aqui mora gente feliz; o sofá azul, as conchas, o tapete de carneiro. Ver que os cachos de cabelo da filha não vão alisar nunca, por mais que ela insista em besuntá-los de creme. Começar a gostar de telefone celular, principalmente porque nele se pode ler no visor quem está chamando. Atender a ligação e ouvir a voz que nos chama pelo nome. Ouvir banalidades, trivialidades, mas principalmente ouvir a voz nos falando de saudades, de ouvir que nossos sentimentos são recíprocos, ressonantes. Estar viva em 2002, para novamente ouvir e ver os fogos de artifício que salpicam a noite de fantasia. Estar viva no útimo dia de 2002 para dizer novamente às pessoas amigas: Que a gente seja tão feliz como foi no ano que passou.


