Eles gostam quando não tem aula, curtem música, navegam na internet, falam gírias e têm seus problemas como qualquer adolescente. E, como qualquer adolescente, adoram o horário do intervalo no colégio, em que podem colocar a conversa em dia com mais liberdade. A diferença é que, no caso dos estudantes que integram a Linha de Frente, nessa hora o assunto é Deus.
Linha de Frente foi o nome que eles escolheram para denominar os grupos formados em várias escolas londrinenses para orar e conversar sobre Deus, na hora do intervalo. O mais interessante é que a iniciativa partiu dos próprios adolescentes.
Tudo começou no ano passado, com quatro jovens que queriam pôr em prática os valores e princípios ensinados na Bíblia e ao mesmo tempo repassá-los para outras pessoas. Assim, depois de conversar com a direção da escola onde estudavam, eles começaram a fazer reuniões semanais na hora do intervalo. Deu tão certo que a cada encontro aparecia mais gente, de diferentes religiões, mas que tinham o mesmo objetivo: viver uma vida cristã. ''Não falamos de religião. A questão não é o rótulo, mas sim falar sobre Deus e sobre o que está na Bíblia'', explicam Paulo Vicente e Louis Marcel Pellissier, dois fundadores da Linha de Frente.
Hoje, várias escolas têm seus grupos. No colégio Portinari, por exemplo, há o grupo do ensino fundamental, que se encontra no pátio, e o do ensino médio, que se reúne em uma sala disponibilizada pela escola, já que os horários de intervalo são diferentes. Os encontros são às segundas, quartas e sextas, com direito a violão.
Como o objetivo não é discutir religião, mas sim os princípios que devem nortear uma vida, os assuntos abordados nos encontros também são relativos ao dia-a-dia desses jovens, como relacionamentos amorosos e familiares. ''A gente tenta discutir sobre as experiências que vivenciamos, mas lembrando os valores que Deus propõe'', afirma Lívia Bogo, explicando que a idéia é utilizar a escola não só como um local para estudar, mas também para fazer algo maior. ''As pessoas tendem a se esquecer da presença de Deus na escola, no dia-a-dia'', observa.
Como em todo grupo que se reúne em torno de um propósito, neste caso também houve um ou outro que se sentisse incomodado com a iniciativa. ''Tem gente que não deixa o amigo vir, ou até tira alguém da roda, mas isso é minoria. Também já teve quem 'zoou' no começo e depois ficou'', relatam os participantes. Em geral, porém, as reuniões têm despertado mais a curiosidade dos alunos. Tanto é que, hoje, os encontros chegam a atrair mais de 40 pessoas.
Volta e meia alguém, integrante do grupo ou não, pede uma oração para um parente ou amigo que esteja passando por algum problema - o que é prontamente atendido. No caso de Pedro Gomes, o pedido foi pela saúde do pai, que estava com câncer. ''Quando eu soube da doença, fiquei muito abalado, acho que até mais que o meu pai'', revela. Só a lembrança, recente e dolorosa, o faz emocionar-se. ''Tenho certeza de que Deus interferiu neste caso, e que as orações que pedi foram atendidas. Hoje ele está curado.''
Já para Karoline Barbosa Pontes, participar desse grupo provocou grandes mudanças em sua vida. ''Antes, eu brigava muito com meus pais. Depois que comecei a vir a essas reuniões, mudei muito, e consegui fazer com que eles melhorassem comigo também. Hoje, a gente se dá bem, conversa mais'', revela, também sem conseguir evitar as lágrimas.
A relação familiar também é destaque entre os irmãos (e integrantes) Ana Ruth, Pedro Elias e André de Sousa, que, embora sejam todos adolescentes, têm uma convivência bastante harmônica. ''Sempre fomos bem amigos, mas agora temos mais assunto para conversar'', analisam.

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