Empinar pipa é uma brincadeira milenar que teria surgido assim que o homem começou a alimentar o sonho de um dia poder ver o mundo de cima, tal qual os pássaros. O tempo passou, o brinquedo se modificou e hoje, principalmente na zona urbana, a pipa é sinônimo de perigo, tanto para quem brinca quanto para quem encontra uma pelo caminho. Se antes o prazer estava em observá-la ganhando altura, a diversão atual está em derrubar ou capturar o brinquedo do colega. A arma utilizada nessa caçada é o cerol, uma mistura de cola com pó de vidro que é colocada na linha e a transforma numa verdadeira navalha.
''Na hora fiquei com muito medo de morrer e não queria nem tirar o capacete quando vi o tanto de sangue que saía'', confessou. Ele disse que dois garotos que estavam brincando na margem da rodovia teriam feito sinal mas ele não entendeu e já sentiu o corte no pescoço. ''Eu tinha acabado de passar por um quebra-molas e estava devagar. Se estivesse mais rápido acho que não Foi uma linha impregnada com cerol que por muito pouco não foi fatal para o auxiliar de serviços gerais José Carlos de Almeida, de 30 anos. Morador do Jardim Ana Rosa, em Cambé (13 km a oeste de Londrina), na tarde do dia 2 de junho ele seguia para o trabalho em uma motocicleta pela PR-445 (sentido Cambé-Londrina) quando foi atingido no pescoço. O ferimento lhe rendeu 14 pontos e cinco dias sem poder trabalhar.
estaria aqui para contar essa história'', comentou.
Desde o acidente, na terça-feira foi a primeira vez que Almeida conseguiu usar a motocicleta novamente. ''Eu olhava para a moto e ficava imaginando a linha na minha frente'', apontou. Ele revelou que, de tanta preocupação, sua esposa já até pesquisou o preço para instalar uma antena no guidão da moto para evitar novos sustos. ''Dentro da vila, eu andava esperto e tomava cuidado com as pipas, mas na rodovia eu não achei que os meninos estivessem brincando'', completou.
Os perigos do cerol existem para motociclistas e também para ciclistas, pedestres e para as próprias crianças. Os riscos são maiores nesta época do ano por causa das férias escolares e do aumento dos ventos. A garotada conhece bem os problemas que podem provocar mas argumentam que soltar pipa sem cerol ''não tem graça nenhuma''.
A reportagem conversou com cinco amigos que soltavam pipas nas proximidades da Rua Araguaia com Avenida Castelo Branco, duas vias movimentadas na Zona Oeste da cidade. Apenas um confessou que usava o cerol. ''Todas as vezes que saio para soltar pipa, minha avó revista minha linha. Para ela não pegar, eu jogo a lata com linha com cerol pela janela'', revelou um garoto de 12 anos. Tido como o ''rei'' da turma, ele disse que em dois dias capturou oito pipas dos colegas, que são revendidas por R$ 0,50, e perdeu apenas três. O garoto falou que já feriu as mãos ''um montão de vezes com o cerol''.
Outro garoto da turma confirmou que ''a grande maioria dos amigos coloca cerol na linha''. Para garantir o sucesso na disputa por pipas, ele disse que existe uma cola especial conhecida como ''cola coquinho'' que segura mais o vidro na linha e dá mais poder para derrubar o brinquedo do colega. O que ele ainda não percebeu é que, com isso, os riscos são ainda maiores para as outras pessoas.

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