Um tipo de público na ida, outro na volta. É assim no ônibus urbano que faz a linha 101, Terminal Urbano/Conjunto Novo Amparo (Zona Leste), no final da tarde. Quando sai do Centro, a maioria dos que embarcam são mulheres e homens humildes, que viajam quilômetros todos os dias para trabalhar. Nos rostos de cada um é fácil perceber o cansaço e a ansiedade de chegar logo ao destino final. Na volta, depois de percorrer trechos de terra e deixar a maioria dos passageiros em ruas de casas simples, os poucos lugares ocupados trazem, quase sempre, estudantes de bairros pelos quais passa o coletivo, como a Vila Casoni (Área Central).
Ao sair do Terminal, às 17h30 de uma segunda-feira, os passageiros se espremem dentro do microônibus utilizado no horário. São 18 lugares para pelo menos 30 pessoas, e as reclamações não custam a surgir. A principal é o tamanho do veículo. ''Todo dia é o mesmo sufoco, com pessoas idosas, gestantes e mães com crianças viajando em pé. Quando chove é pior, porque aí mais gente anda de ônibus, mas nem assim colocam carro maior'', queixa-se a empregada doméstica Maria Aparecida Rodrigues Costa. Segundo ela, o ônibus convencional, com 32 lugares, só é utilizado na linha durante os primeiros horários da manhã, até as 8 horas.
O motorista Amauri Marciano de Souza, 29 anos, que trabalha na linha há nove meses, afirma, porém, que nem todo dia há problemas de superlotação. ''Meu horário é das 13h20 às 18h20, e tem dia que são transportados pouco mais de 100 passageiros neste período.'' Mesmo assim o motorista, que é tratado pelos mais conhecidos como ''Zulú'', admite que ''às vezes fica complicado'' administrar o excesso de pessoas em pé.
O chefe de tráfego da Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL), Daniel Martins, explica que estudo feito na linha comprovou a viabilidade do uso do microônibus. Segundo Martins, depois que o veículo menor foi adotado, no mês de fevereiro deste ano, registrou-se, inclusive, uma queda no número de assaltos. Ele lembra que antigamente os assaltos eram frequentes na linha. ''A adoção do microônibus parece ter coibido este tipo de ação. Houve apenas dois assaltos de lá para cá'', informa.
Para Zulú, a linha não chega a ser perigosa. ''Nunca fui assaltado.'' Por se tratar de microônibus, ele concentra as funções de motorista e cobrador. Em determinados momentos é preciso fazer uma certa ''ginástica'' para dirigir, abrir porta, receber e dar troco, tudo ao mesmo tempo. Quando chove, ainda tem que driblar o perigo de ficar atolado na estrada de terra que liga o Novo Amparo à Avenida Brasília.
O trecho é de aproximadamente 800 metros e ali o ônibus chacoalha muito, obrigando quem está de pé a verdadeiros malabarismos. ''Esta é a pior parte'', atesta Fernando Gabriel, de 18 anos, que faz diariamente o trajeto de aproximadamente 25 minutos entre Terminal e Novo Amparo, depois de pegar outro ônibus, que o traz do campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL) onde trabalha como office boy até o Centro. A via sem asfalto que dá acesso ao conjunto não é a única do percurso. Ao sair do bairro o ônibus passa por outro trecho em que a alternativa é a poeira ou o barro.
Nestas partes do percurso a sensação é de estar utilizando um ônibus rural. Às margens da estrada o capim é alto e é possível ver animais pastando. Quando surgem as ruas asfaltadas do bairro dá a sensação de que os moradores vivem ilhados. Todos se conhecem, e há uma espécie de cumplicidade entre os que vivem ali, dependentes de transporte coletivo, e o motorista da linha 101. ''Pára aqui pra mim, Zúlu'', pede a adolescente, tentando evitar uns passos a mais de caminhada. Ele faz que não ouve e segue sua rota, parando no ponto mais próximo.
Logo depois, porém, ele abre uma exceção, que é também uma demonstração de generosidade: próximo à creche do bairro, uma mulher se posiciona em frente à porta do ônibus com um bebê no colo, como se fosse descer. Ao invés disso, porém, alguém coloca uma criança para dentro, enquanto o veículo dá uma rápida parada em frente ao portão da creche. É a filha mais velha de Zilda Machado de Souza, 27 anos, que passa o dia na instituição enquanto ela cuida de uma mulher idosa no Jardim Lindóia (Zona Leste). ''A caçula eu levo comigo, porque não tenho onde deixar'', conta. Zilda é uma típica mãe de família que, como tantas outras da periferia, enfrenta resignada a dura realidade do ir e vir sacolejado do ônibus urbano para garantir o sustento da família.

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