Lindoeste investiga funerais fictícios
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quinta-feira, 03 de abril de 1997
Paulo Pegoraro Sucursal de Cascavel 
Edson MazzettoDefesaAdministrador Sebastião Moreira de Souza na funerária: Não há nada de irregularLINDOESTE - Pessoas vivas relacionadas como sepultadas, pagamento de caixões e funerais para carentes feitos pela prefeitura em número duas vezes superior ao de mortos e sepultamentos feitos clandestinamente. Estas são algumas das denúncias que estão sendo investigadas por uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara de Vereadores de Lindoeste (40 quilômetros ao sul de Cascavel). O caso está sendo chamado de caixãogate (inspirado no Watergate, como ficou conhecido o escândalo que resultou na renúncia do presidente americano Richard Nixon, em 1974).
As investigações envolvem a funerária Nossa Senhora Aparecida, a única da cidade, propriedade de Gonçalves José da Fonseca e administrada por Sebastião Carlos Moreira de Souza. A ex-secretária de Finanças, Cila Pereira, que autorizava os pagamentos, é sobrinha de Gonçalves, irmã do ex-prefeito Geraldo Pereira Lacerda (PDT) e mulher de Sebastião.
Todos ainda serão ouvidos pela CEI. A comissão é formada pelos vereadores Ardemiro Girelli (PPB), presidente; Adalto Matias (PDT) e Vandir dos Santos (PMDB). A comissão foi formada a partir de denúncias recebidas por vereadores.
Um dos casos que motivou a investigação ocorreu na Fazenda Vitória, onde estão assentados ex-sem-terra, entre eles o vereador Neuri Sperotto (PMDB). O agricultor da Fazenda Vitória, Alceri Fernandes, teve seu nome relacionado como morto. Ele consta como atendido pela funerária por conta da prefeitura.
ConfusoNa mesma nota fiscal são descritos outros dois sepultamentos. A nota, com valor de R$ 960 mil, tem como data 0/02/97, sem especificar o dia. Porém, o sepultamento de Alceri teria sido feito no início do ano passado e envolve outra situação confusa porque quem teria morrido é outra pessoa.
Segundo o presidente da CEI, entre 1994 e 96, a prefeitura pagou por 143 funerais realizados no cemitério da cidade e em outros quatro da zona rural. A Secretaria de Saúde informou que oficialmente foram registrados apenas 78 óbitos no município.
O vereador Ardemiro Girelli observa que entre as notas pagas há muitas com a letra que parece ser da ex-secretária de Finanças e mulher do administrador da funerária, o que será conferido por exame grafotécnico. Girelli estima que os negócios entre a empresa e a prefeitura tenham chegado a R$ 100 mil.
Conta própriaO administrador da funerária, Sebastião de Souza, disse ontem que não há nada de irregular nos pagamentos. Em relação ao sepultamento do agricultor Alceri Fernandes, explicou que quem morreu foi um peão dele, que teria se afogado em um riacho. Fernandes teria ido à funerária, retirado o caixão e feito o sepultamento por conta própria.
Como o trabalhador não tinha documentos nem foi informado seu nome à funerária, foi emitida a nota com o nome de Alceri Fernandes. Procurado pelos vereadores da CEI, o agricultor se assustou ao saber que estava morto e negou os fatos, ironiza o presidente da CEI.
Mal explicadaEm resposta, o administrador disse que denunciará Alceri Fernandes à polícia. É para que seja investigada a morte do trabalhador, muito mal explicada, e o sepultamento, feito escondido. Segundo Souza, o número de sepultamentos pagos não confere com os óbitos registrados porque geralmente não se faz atestado de óbito e os próprios cemitérios não são registrados. No entanto, ele admitiu que sua mulher às vezes preenchia as notas.
O ex-prefeito Geraldo Lacerda, atualmente morador em Curitiba, foi ouvido ontem por telefone pela Folha e deu versão semelhante. Ele acrescentou que vai esperar a conclusão da CEI para se manifestar.


