Limites são ignorados
Curitiba - Para o professor da UFPR, Marco Tadeu Grassi, o Estado precisa agir com mais rigor nas questões ambientais. ''Área de Proteção Ambiental é para não ter ninguém. Mas o governo, em todas as esferas, não age com o rigor necessário'', critica.
Segundo Grassi, o problema não se limita a ocupações promovidas por pessoas de baixa renda. ''Há casos de construções de empresas, de pessoas de todas as classes que não são embargadas e acabam ficando'', aponta. A ocupação das margens, diz o professor, colabora para o aumento da quantidade de material no leito do rio. ''Isso diminui o volume da água do leito e aumenta o risco de inundações'', explica.
O Conselho Nacional do Meio Ambiente determina um recuo de 15 a 50 metros do meio do rio para construções na margem. Mas em regiões como a Vila Nova Barigui, esses limites são ignorados pela necessidade. Há nove anos a vendedora Eliane Cristina Brandão mora de frente para o Rio Barigui. ''Aqui, quando chove, a água leva tudo'', conta.
Eliane veio do Norte do Paraná para Curitiba com a irmã. Morou de aluguel com familiares, depois com o marido. Divorciada e com cinco filhos, acabou comprando o barraco na beira do rio. ''Me livrei do aluguel'', conta. Como vive de vender salgados e lingerie, Eliane não tem renda fixa. ''É difícil de saber quanto vou ter no mês'', diz.
No ano passado, ela e o filhos tiveram que deixar a casa ao lado do Barigui. ''O Conselho Tutelar disse que, por causa da madeira, a casa não tinha condições sanitárias de abrigar as crianças'', conta.
Com medo de perder a guarda dos dois meninos e três meninas, Eliane mudou para uma casa no mesmo bairro, mas mais distante da água. ''Voltei há pouco tempo'', diz. Na terça-feira, Eliane e os filhos devem mudar de novo. Vão para as Moradias Aquarela. ''Se Deus quiser vamos mudar pela última vez'', confessa.
No entanto, enquanto Eliane conta os dias para a mudança, Marili de Fátima Santos investe na casa que acaba de ocupar na margem do rio. ''Peguei umas tábuas com uns conhecidos e me instalei'', conta. Marili vive do Benefício de Prestação Continuada da filha, que é deficiente, e do Bolsa Família que recebe pelos outros filhos. São cinco.
''Não tenho como trabalhar. Minha filha precisa de cuidados em tempo integral'', diz. Instalada por lá, Marili diz que só sai se ''ganhar um terreno''. ''Vivem dizendo que vão me tirar, mas não tenho para onde ir. Faço um escândalo, mas não deixo a minha casa'', promete. (R.C.F.)





