Líder de posseiros morre ao espantar búfalos no litoral
Dimitri do Valle
De Curitiba
O agricultor Hélio Costa Miranda, 38 anos, morreu na noite de segunda-feira ao tentar escapar de uma manada de búfalos que o perseguia. Miranda era um dos líderes dos posseiros da comunidade de Rasgadinho que fica no interior de Guaratuba, litoral do Estado. As terras da região foram alvo no ano passado de uma violenta disputa entre 19 famílias que vivem no local e o fazendeiro Sérgio Cavalcanti, acusado de soltar os animais para destruir as lavouras e tentar expulsar os trabalhadores à força. Ele nega. No acidente que matou Miranda, os búfalos estavam dentro das lavouras dos posseiros.
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) acusa Cavalcanti de responsabilidade na morte de Miranda. O advogado Darci Frigo disse que se os búfalos estivessem na propriedade do fazendeiro, a morte de Miranda poderia ter sido evitada. Um acordo judicial para afastar os animais da vila de agricultores foi firmado na Justiça em setembro do ano passado. Desde março de 1998, o Ministério Público em Guaratuba aguarda pronunciamento da Justiça sobre o pedido de prisão preventiva contra o fazendeiro, denunciado por contratar capangas armados.
Miranda, que deixa seis filhos, morreu por causa de uma hemorragia que sofreu na perna esquerda. Enquanto tentava escapar dos animais que avançaram sobre ele, o agricultor pisou em uma valeta. A bainha de couro onde guardava um facão estava rasgada e a lâmina atingiu uma artéria da perna. O agricultor Paulo Cândido da Veiga, 38 anos, que ajudava Miranda a afastar os búfalos das plantações, disse que ele perdeu a vida em menos de oito minutos.
A responsabilidade criminal do Sérgio Cavalcanti nesta morte terá que ser discutida pela promotoria, declarou Darci Frigo. Em junho passado, o advogado ingressou com ação de uso capião para dez famílias que estão na área há mais de uma década. A Folha esteve em Rasgadinho em novembro de 1998 para documentar a relação de tensão vivida entre os posseiros e Sérgio Cavalcanti. Miranda disse na época ter sido ameaçado de morte por Cavalcanti. Apesar dos problemas de disputa pela terra, ele gostava de Rasgadinho. Aqui nós podemos viver mais tranquilos, ter liberdade, comentou na ocasião.
A Folha tentou ouvir os advogados de Cavalcanti. Um deles, que não quis fornecer o nome para a reportagem, declarou que defende seu cliente na área cível e estaria impedido de falar em nome do fazendeiro. Cavalcanti também foi procurado e não foi encontrado. (Colaborou James Alberti)





