Líder de despejo diz ser briguenta
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segunda-feira, 23 de março de 1998
Benê Bianchi 
Arquivo FolhaNo tempo das ardósiasIracema Ferreira Silva e Silva: briga com Cohab e notoriedadeEla ficou conhecida como Iracema das Ardósias, mas poderia ser Iracema da Vila Benzoni Vicentini, Iracema do Conselho de Saúde ou, para lembrar um fato mais recente, Iracema do despejo do fundo de vale. Iracema Ferreira Silva e Silva, 49 anos, é uma líder comunitária que aprendeu a brigar cedo. Ela mesma se classifica como briguenta. E seu currículo comprova a fama.
Na semana passada, ela, que é presidente da Associação dos Moradores da Vila Antonio Benzoni Vicentini (zona norte de Londrina), se sobressaiu na briga dos moradores locais para expulsar famílias que invadiram o fundo de vale do bairro. Após uma assembléia realizada na casa de Iracema, foi decidido pela expulsão, sem esperar atitude do Poder Judiciário ou mesmo do Poder Executivo. Na terça-feira, tendo Iracema à frente, os moradores destruíram os barracos dos invasores.
Se tivesse gente boazinha acampada ali por que eles não esperaram para a Cohab (Companhia de Habitação) vir buscá-los? Eu fui lá conversar com eles e percebi que não eram pessoas carentes. Era gente que tinha onde morar e que estava querendo especular. Tanto que eles invadiram no sábado e no domingo já tinha gente comercializando os lotes, justifica ela. Com o argumento de que queriam evitar conflitos, os invasores deixaram a área e voltaram para suas casas na última quinta-feira, após reunião com a Federação das Favelas.
Iracema não vê contradição entre o despejo apoiado por ela e seu passado de luta por melhor moradia e de militância no Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual concorreu a uma vaga na Câmara, nas últimas eleições. Eu sou pelo pobre. Mas gosto de pobre honesto. Tem gente que tem casa e vem pegar um pedaço de terra aqui. Não sei se estou tão errada de ir lá e liderar a expulsão. Isso não teria ocorrido se fossem mesmo pessoas carentes. Neste caso, poderíamos discutir juntos uma forma de terem moradia decente.
Arquivo FolhaNo dia da derrubadaDemolição de barracos: para ela, invasores queriam especular
Foi justamente por brigar por moradia decente que Iracema ficou conhecida em Londrina. Foi ela quem liderou a luta dos moradores das casas de ardósia para que o material fosse substituído, após ter apresentado vários problemas, como rachaduras e infiltrações. Nós entramos nas casas em 91. No começo foi tudo bem, mas 30 dias depois começaram a surgir os problemas.
Na época, Iracema tinha um salão de cabeleireiro e uma sorveteria na rua Araguaia. Parava pouco em casa, mas uma noite o vizinho esperou que ela chegasse para convidá-la a participar das discussões para cobrar uma solução da Cohab.
Até aquele dia minha casa não tinha apresentado problemas. Mas sou uma pessoa cristã. Não aceito que meu vizinho esteja com problemas e eu não faça nada. Me uni a eles e disse que não adiantava fazer um trabalho de formiguinha. Tínhamos que estar todos juntos. Nas discussões, os moradores descobriram que estavam pagando as prestações com o valor do terreno - que já tinha sido pago - embutido. Aí a briga começou mesmo, lembra Iracema.
Ela se envolveu tanto nos problemas do bairro que aos poucos foi deixando o salão de cabeleireiro e a sorveteria. E gostou tanto que desde 91 é presidente da Associação do Benzoni Vicentini. Eu penso em parar mas as outras pessoas não querem pegar.
Depois de várias reuniões e muita cobrança, a Cohab suspendeu a cobrança das prestações das casas de ardósia e deu prazo - que termina daqui a um ano - para os moradores substituírem o material. Quando eu chegava nas reuniões o pessoal dizia lá vem a Iracema das Ardósias, ela deve estar com a bolsa cheia de pedras. No começou detestava isso, mas depois me acostumei.
Com as questões do despejo e das casas de ardósia, o nome de Iracema ganhou espaço nos noticiários. Mas ela conta que através da associação já brigou também pelo asfaltamento e a entrada de ônibus no bairro. Quando chegamos aqui era um barreiro; ônibus, só nas ruas de cima.
Em casaEu sou pelo pobre. Mas gosto de pobre honesto, diz Iracema
Nascida em São Domingos, oeste de Santa Catarina, também brigou muito em casa, principalmente para convencer o pai de que ela não era mulher de sair de casa somente para se casar. Na família de meu pai, as mulheres iam para colégio interno e saíam de lá para se casar. Nunca aceitei isso. Aos 13 anos foi estudar em Chapecó e, aos 17, se mudou para Pato Branco (Sudoeste do Paraná), onde participaria do primeiro protesto de sua vida.
Era época de eleições e os candidatos iam dar entrevistas nas rádios. Mas um candidato cortava a luz para que os ouvintes não ouvissem a entrevista do outro, o que prejudicava a gente, que estudava à noite e ficava sem aula. Foi então que ajudei a organizar uma passeata pelas ruas de Pato Branco. Todos os alunos saíram com velas acesas.
Com 18 anos teve o primeiro emprego - como manicure - ao mesmo tempo que fazia um curso de atendente de enfermagem. Depois de se formar, trabalhou num dos hospitais de Pato Branco, onde conheceu os ex-ministros da Saúde Alceni Guerra, hoje prefeito de Pato Branco, e Borges da Silveira. Para Londrina, Iracema veio no final de 1977. O primeiro emprego foi no Hospital Evangélico, de onde saiu pouco tempo depois porque queria ir ao casamento de um irmão mas a escala de folga não permitia.
Depois de se casar com o mecânico Moacir Vieira da Silva e do nascimento do único filho do casal - Maikon Deusdelhy Silva e Silva, hoje com 16 anos - a família se mudou para o Mato Grosso. Quatro anos depois, estava de volta a Londrina. Hoje não tenho Estado. Quando estou em Santa Catarina, falam que a paranaense chegou. Aqui me chamam de catarinense.
Pouco tempo após o retorno à Cidade, a família se instalou no Benzoni Vicentini, onde Iracema começou seu envolvimento com a luta comunitária. Ela ressalta que sua atuação extrapola os limites do bairro. Além do conselho local de saúde, ela também é representante no Conselho de Saúde da Região Norte.
O despejo das famílias do fundo de vale do Benzoni Vicentini não foi uma atitude que tenha agradado Iracema. Pelo menos é o que ela garante. A gente não fez isso porque gosta. Essa situação de invasões, pessoas morando em locais sem infra-estrutura mínima, não pode continuar. Às vezes é preciso acontecer um fuá grande para chamar a atenção de nossas autoridades.


