Lição de vida no meio do canavial
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de janeiro de 2008
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Era uma vez, bem longe, distante do Brasil, um elefante dourado, solto e brincalhão, que adorava crianças. Assim começa uma das histórias escritas por Kauane Karen dos Santos, uma garota de 11 anos movida pelo mais incrível dos combustíveis do ser humano: o sonho. No caso da menininha franzina, de jeito simples e sorriso cativante, o desejo é ser artista. Seja como escritora, cantora ou dançarina, se depender de força de vontade e do apoio dos pais, pode apostar que ela chega lá.
Filha de cortadores de cana, Kauane mora em uma colônia rural de Porecatu. A casa de madeira com apenas um quarto - que ela divide com os pais e o irmão de 12 anos - é o cenário que a menina tem como ponto de partida para soltar a imaginação. Ela conta que há muito tempo tinha as histórias na cabeça, mas não escrevia com medo de não dar certo. Há cerca de um mês, pegou um caderninho e começou a colocar a imaginação no papel, de onde saíram, em menos de dez minutos, contos como O Elefante Dourado e Os Três Bichos.
As linhas do caderninho de Kauane, no entanto, não ficam restritas aos contos. Mesmo sem ter rádio em casa e sem saber tocar nenhum instrumento, ela acaba de compor a primeira música. Com o título de Pequeno Amor, a canção é recheada de frases românticas: Se essa é nossa história e Deus quis assim, agora ninguém mais pode impedir um sonho que foi realizado.
Perguntada de onde vem a inspiração, a jovem mantém a simplicidade: Da minha cabeça, ué! Eu invento tudo na hora e vou cantando a música na cabeça, responde Kauane, que tem como única experiência musical a participação no coral da igreja.
Como se não bastassem as habilidades para escrever e compor música, ela surpreende ainda mais quando o assunto é a dança. Ao ouvir um duvido que você faz isso, a menina corre até o quarto para trocar de roupa e, sem o mínimo aquecimento, começa a fazer movimentos dignos de uma atleta de ginástica, lembrando muito a gaúcha Daiane dos Santos, que Kauane considera uma de suas referências. Vejo ela competindo na televisão e aí tento fazer igual. Esses dias até sonhei que eu tinha sido chamada para competir no Pan, e fiquei em primeiro lugar.
Diante de tantas habilidades, fica impossível para uma mãe não sentir orgulho da filha. Por isso a cortadora de cana Maria Dalva dos Santos é só sorrisos quando fala da caçula da família. Ela sempre teve facilidade de aprender as coisas, sabe conversar, é estudiosa, esforçada, atesta, mostrando os certificados que a filha ganhou em cursos e eventos da escola.
Mas Maria Dalva não quer ficar apenas no orgulho. Quer ajudar a realizar o sonho da filha. O primeiro passo é deixar a colônia e tentar uma vida melhor na cidade grande. Com o marido afastado do trabalho por doença desde março do ano passado, ela sustenta a casa com os R$ 300 que ganha por mês nas lavouras da região. Como estava devendo para o mercado próximo à colônia, em janeiro o ordenado da família foi de apenas R$ 57.
Chegamos a passar fome. Não tem mais condições de morar aqui. Não tem oportunidades para mim e muito menos para os meus filhos. Faço o que for preciso para realizar os sonhos deles e para que eles tenham uma vida melhor que a minha, desabafa a mãe, que chegou a vir para Londrina de carona, percorrendo trechos a pé com a filha para procurar emprego, mas não obteve sucesso.
Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pela família desde que saiu de São Pedro, interior de São Paulo, com destino ao norte do Paraná, Maria Dalva não pensa em desistir. No papel de mãe, tenho que mostrar que existe esperança e é preciso acreditar que pode dar certo. Estou rezando para que eu possa conseguir um emprego e sair daqui junto com a minha família.
Provando ser muito esperta, Kauane mostra que já aprendeu a lição passada pela mãe. Tem gente que sonha, mas também não faz nada para acontecer. Vou correr atrás dos meus sonhos para, quem sabe um dia, também poder ajudar meus pais.
SERVIÇO
- Quem quiser ajudar a família de Kauane, pode entrar em contato com Meire, vizinha dela em Porecatu, pelo telefone (43) 3624-6066 ou na redação da FOLHA, pelo telefone (43) 3374-2175.


