Ela já foi recebida por um príncipe, já participou de audiência com o presidente da República, já deu muitas entrevistas e já teve até um jardim japonês batizado com o seu nome. Mas agora Tomi Nakagawa, 98 anos, única imigrante viva que chegou no Kassatu Maru, o primeiro navio japonês a aportar no Brasil, está prestes a receber a mais alta honraria concedida pela Assembléia Legislativa: o título de cidadã honorária do Paraná. A sessão solene será realizada hoje, na sede da Associação Cultural e Esportiva de Londrina (Acel), para que Tomi não precise se deslocar até Curitiba.
Às vésperas da grande homenagem, proposta pelo deputado Luiz Nishimori (PP), a imigrante não cabe em si: ''Estou muito contente'', resume. Com uma audição invejável e bom humor contagiante, ela só reclama quando tem que caminhar pela casa da filha, apoiada no andador. ''Muito longe'', chegou, balbuciando em japonês, até a sala na tarde da última terça-feira, onde a reportagem a aguardava. Mas depois de acomodar-se no sofá, com a ajuda da filha Kiyomi, demonstrou estar à vontade. Aos poucos, foi falando sobre sua infância na capital paulista, onde a família passou os primeiros anos após desembarcar no Porto de Santos. ''Eu gostava muito de São Paulo, tinha muitas amigas lá.''
Tomi não se lembra dos relatos dos pais sobre a viagem no lendário navio, mas sabe que viajou a maior parte do tempo no colo da mãe. Natural que não se lembre: naquele 1908 ela ainda era um bebê de um ano e oito meses. Passados alguns anos, a família foi morar em uma fazenda, dando início a uma época de muito trabalho e discriminação. ''Quando mudamos para o sertão, os japoneses não gostavam de mim porque eu falava português'', relembra a imigrante, que diz gostar de tudo no Brasil.
Ela conta que a família toda madrugava para trabalhar na roça. ''Muitos morreram por causa das doenças, mas meu pai só deixava a gente tomar água fervida, por isso nunca ficamos doentes.'' Além de cuidadoso, o pai de Tomi tinha outra característica: vivia cantando e a caçula das meninas aprendeu com ele a driblar assim as dificuldades da vida. A mãe lhe ensinou que não se deve falar mal de ninguém, e assim Tomi concebeu sua própria filosofia: ''Melhor do que falar dos outros é cantar''.
Hoje ela já não sabe o nome dos 30 netos, 34 bisnetos e um tataraneto, mas não esquece as canções que a acompanharam pela vida, como Terezinha de Jesus. ''Ela vive cantando'', conta a filha, revelando outro segredo da imigrante: não comer carne vermelha e beber muito leite. ''Na dieta dela tem sempre muito peixe do mar, soja e queijo branco. Mas ela não é como outros idosos. Adora sanduíche, sorvete, chocolate e melancia'', afirma.
Atenta à conversa, Tomi sorri e confessa que é ''comilona''. Mas a receita parece estar dando certo. Perto de completar um século de vida, a passageira do Kassatu Maru quase não fica doente e nunca ficou internada. ''Nem quando teve derrame, há uns 10 anos, conseguimos segurá-la no hospital'', diz Kiyomi. Questionada sobre os preparativos para a festa de hoje, Tomi responde mais uma vez com bom-humor: ''Não preciso de roupa nova, já estou bonita...''

mockup