LETRAS - Copista moderno resgata antigas tradições
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segunda-feira, 19 de setembro de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Na rua Ternura, no Conjunto Ruy Virmond Carnasciali (Zona Norte de Londrina), mora um copista moderno: o aposentado Luiz Pradal. Amante dos livros, esse descendente de italianos de 79 anos que cursou até a ''terceira série do primário'' resgatou a tradição de copiar obras literárias, função valorizadíssima durante a Idade Média, ao fazer cópias manuscritas da Bíblia Sagrada. E não parou só nisso. Ele também aprendeu a tradicional técnica dos antigos perfumistas e hoje fabrica artesanalmente réplicas de óleos usados em unções.
O pesquisador e historiador francês Jacques Verger descreve no livro ''Homens e Saber na Idade Média'' que os bons copistas eram valorizados como verdadeiros artistas. As letras eram cuidadosamente lapidadas em folhas de papiro que tinham como destino a nobreza medieval. Com o surgimento de novas técnicas de impressão e dos elevados custos das cópias, essa tradição acabou se perdendo. Hoje, só restam mesmo curiosos como Pradal.
Ele conta que seu fascínio pelas cópias começou por sua paixão à Bíblia Sagrada. O gosto pela leitura do livro sagrado dos cristãos foi sendo revelado por influência da sogra, Maria Geraldina, já falecida. ''Minha sogra leu a Bíblia inteira umas dez vezes. Ela aprendeu a ler assim. Então, pedia explicações à ela para falar aos jovens na escola onde eu era uma espécie de bedel. Achava aquilo grandioso e comecei a ler também'', comenta.
Da leitura para as cópias foi uma questão de ''desafio''. ''Um dia, comentei com um aluno que tinha lido três vezes a Bíblia mas percebi que ele deu uma risadinha e não acreditou. Então, disse para ele que iria provar'', recorda Pradal. Isso aconteceu em 1986 e surgia aí sua primeira cópia, escrita em português.
Ele trabalhava em dois empregos e se dedicava às cópias apenas nos tempos que tinha livre. Foi mais de um ano escrevendo à caneta em cadernos universítários. Passados quase 20 anos, Pradal já acumula quatro cópias (duas em português, uma em espanhol falado no Paraguai e outra em italiano, uma homenagem às suas raízes). Somando tudo, ele precisou de 77 canetas para acumular os 66 cadernos com todos os escritos que constam na Bíblia impressa.
''Escrevi todas desde o Gênesis 'E no princípio criou Deus o céu e a terra', até o 'Amém' final do Apocalipse'', aponta o homem que perpetua a tradição dos antigos copistas.
Casado há quase 60 anos com Aurora, 78 anos, com quem teve 11 filhos (dois já falecidos), o patriarca que já tem até tataraneto se diz um apaixonado pela vida e que, lendo e copiando a Bíblia, entendeu que o ''elemento humano é a coisa mais importante''.
As leituras e escritas também despertaram nele o interesse por um outro ofício ainda mais antigo que o de copista: o de perfumista. No interior de São Paulo, aprendeu um pouco da técnica. Com a curiosidade, pôs as mãos para pesquisar e das cópias de perfumes atuais migrou para os óleos aromáticos usados em cerimônias religiosas. Conseguiu reproduzir a primeira receita conhecida, que consta na Bíblia. ''Foi a primeira receita dada por Deus à Moisés'', explica. E assim, passa horas num pequeno quartinho nos fundos de casa, rodeado por líquidos, tubos de ensaio, livros e ouvindo seus antigos ''bolachões'' de compositores clássicos. Rotina só quebrada em dias de jogos do Corinthians, o time do coração.


