O governo do Estado comandou ontem uma guerra de bastidores, na véspera do início dos trabalhos do Tribunal Internacional dos Crimes do Latifúndio. Nas últimas 24 horas, o Palácio Iguaçu provocou um racha dentro da seção estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ao impedir que a instituição nomeasse um advogado para defendê-lo no julgamento dos crimes cometidos no campo durante a gestão do governador Jaime Lerner (PFL). Com isso, o julgamento –simbólico, mas com força política– pode ser realizado sem a presença de um defensor do governo.
Em nota da assessoria do Palácio Iguaçu, o presidente da OAB no Paraná, José Hipólito Xavier da Silva, classificou o julgamento como de ‘‘cunho nitidamente político’’. Outra nota, com o mesmo teor, foi divulgada pelo presidente da regional Sul da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Murilo Krieger.
Em entrevista à Folha, o presidente paranaense da OAB foi categórico ao afirmar que a instituição não integra o tribunal. Por isso, não vai indicar ninguém para representar o governo. ‘‘Juridicamente, este tribunal não tem valor algum. É um tribunal com feições absolutamente simbólicas e ninguém está autorizado pela OAB a participar dele’’, afirmou Xavier da Silva.
A notícia surpreendeu os organizadores do evento. O advogado criminalista Dálio Zippin, que integra o comando do julgamento, disse que quem patrocina o evento é a OAB nacional. ‘‘Fui indicado pelo Conselho Federal da Comissão Nacional de Direitos Humanos, que se dispôs a pagar passagens para alguns jurados. Além disso, como presidente estadual da mesma comissão, ajudei com a cessão de uma van’’, declarou. Porém, Xavier da Silva afirmou que somente ele tem o poder de autorizar alguma coisa na OAB estadual.
Mas não é só a posição da OAB paranaense que causa transtornos aos organizadores. Até o final da tarde, nenhum advogado havia aceito o cargo de defensor do governo estadual. Por causa disso, a organização estudava se deve ler a carta que o governo encaminhou ao jurista Hélio Bicudo, na qual ele rebate as acusações contra o governo estadual. Bicudo disse que o governo não vai ficar sem defesa. Ele afirmou que é do interesse dos jurados e dele que haja a maior imparcialidade.
No julgamento de hoje, que começa às 8 horas, na Reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR), serão analisados casos como a interceptação telefônica em cooperativas dos sem-terra, as mortes dos agricultores Sebastião Camargo e Antônio Tavares Pereira e agressões aos sem-terra e ativistas dos direitos humanos. A sentença deverá sair por volta das 18 horas.

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