Londrina

Mário CésarEscoltaSem-terra foram recebidos, em Londrina, pelos ‘sem-alvará’, expressão adotada pelos mototaxistasO governador Jaime Lerner (PFL) disse ontem em Londrina, antes de embarcar para a Europa, que não acha justo a marcha que os sem-terra estão realizando de Querência do Norte até Curitiba. ‘‘Estamos abertos ao diálogo e nos esforçando para atender os anseios dos sem-terra.’’ O governador disse ainda que a marcha é inoportuna porque o movimento é nacional e não somente do Paraná. ‘‘Além disso, estamos negociando e os líderes haviam prometido uma trégua.’’ O governador disse que não quer que a caminhada chegue até o Palácio Iguaçu. ‘‘A população pode se voltar contra o movimento e termos uma batalha.’’

Mário CésarEncontroCrianças que integram o movimento Infância Missionária trocaram presentes com as crianças sem terraOs 270 homens, mulheres e crianças que participam da Marcha pela Liberdade dos Sem-Terra, pelo Emprego e pela Reforma Agrária, chegaram ontem de manhã a Londrina, onde permanecem até a próxima quinta-feira. Eles foram recebidos na avenida Tiradentes por um grupo de ‘‘sem-alvarás’’, expressão adotada pelos mototaxistas, que tentam assegurar na Justiça autorização para exercer a atividade. ‘‘Somos trabalhadores urbanos e, assim como os do campo, nós também queremos trabalhar’’, justificou o presidente da Associação dos Mototaxistas de Londrina, Ricardo Rodrigues.
Os ‘sem-alvarás’ fizeram a escolta dos sem-terra até o cruzamento das avenidas Tiradentes com a Rio Branco. Quatro mototaxistas, carregando a faixa com a frase ‘‘Terra e trabalho. A vida com dignidade’’, acompanharam a marcha até o Palácio do Futsal, onde o grupo vai ficar alojado.
Chinelo nos pés, bonés do MST e, na mochila, saco plástico para se proteger da chuva, os sem-terra já caminharam quase 300 quilômetros desde o dia 26 de setembro, quando teve início a marcha em Querência do Norte (noroeste do Estado). A marcha, embalada pela música do caminhão de som que acompanha os sem-terra, deverá chegar a Curitiba no próximo dia 22, totalizando quase 700 km.
O menino Emerson, de 2 anos e 8 meses, é o mais novo integrante do grupo. A mãe Loureci da Silva, 37 anos, conta que Emerson está com gripe e com infecção na garganta e ouvido. Moradora em Querência do Norte, ela e o marido deixaram dois filhos adolescentes em casa. ‘‘Não é fácil essa vida mas a gente tem que resistir para ver o resultado’’, diz.
A marcha, segundo o diretor da Executiva Regional do MST em Londrina, Luiz Roberto de Oliveira, tem conquistado o apoio da população. Em Maringá, ele destaca, os sem-terra foram recebidos pelas autoridades do município: o prefeito, o bispo e presidente da Câmara. ‘‘O apoio tem sido mais importante que a divulgação da marcha’’, avalia.
Enquanto seguem pelas ruas de Londrina, os sem-terra ouvem manifestações variadas. ‘‘Sem-terra tem que morrer’’, grita um estudante, escondido atrás do muro de um colégio particular. Os integrantes da marcha respondem a manifestação com aplausos.
Também são saudados por jovens que, solidários, acenam com as mãos e aplaudem o grupo. Vêem pessoas cochichando e olhares críticos. Ouvem resmungos de motoristas incomodados com a interrupção do trânsito para a passagem dos cerca de 320 sem-terra. A marcha ganhou a adesão de 50 integrantes da região de Londrina.
Os coordenadores da manifestação tentaram agendar para ontem uma audiência com o prefeito Antonio Belinati e também na Câmara de Vereadores. Conseguiram definir um debate, realizado ontem à noite na Universidade Estadual de Londrina, uma audiência pública na Câmara para às 9 horas de hoje e ainda está prevista passeata às 15h30 no centro da cidade. Amanhã será realizado ato público às 18 horas no Calçadão, seguido de show artístico. Também estão programadas reuniões e visitas a grupos populares e religiosos. Na quinta-feira, o grupo deixa Londrina e segue para Ortigueira (140 km ao sul), onde outros 200 trabalhadores vão engrossar a caminhada.
A marcha, segundo um dos líderes do MST, Paulo Marqui, tem como meta a liberdade de líderes que estão presos, o fim da perseguição política de trabalhadores que estão à frente do movimento, liberação de recursos para financiar lavouras nas áreas ocupadas e contratação de pessoal para que o Incra possa acelerar o processo de vistoria de áreas e assentamento de famílias.
De acordo com o MST, há cerca de 10 mil famílias de trabalhadores sem terra em todo o Paraná. Eles estão espalhados por quatro grandes acampamentos e 113 ocupações ou assentamentos ainda irregulares, dos quais 46 são áreas de conflitos em que os proprietários conseguiram mandados de reintegração de posse ainda não cumpridos.
(Colaborou Edilson Moura)

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