Como o aposentado de Sertanópolis Marcio Dicesar Benassi, que numa carta à FOLHA afirmou ser campeão em leitura labial, ''tanto que muita gente não acredita que sou surdo e os que acreditam nem percebem'', o estudante londrinense Maicon Cadete, 17 anos, é expert em associar a linguagem dos sinais à leitura do lábios do interlocutor.
A destreza de Maicon é tamanha, que fica quase impossível perceber que ele não escuta. Ele cursa o primeiro ano do ensino médio no Instituto Londrinense de Educação de Surdos (Iles) e trabalha num supermercado da cidade, mas seu sonho é ser médico.
''A leitura labial é muito importante para a comunicação do surdo. Ajuda a interpretar e a transmitir idéias para os outros surdos e também ouvintes numa conversa'', diz Maicon, que começou a aprender a ler lábios aos três anos e hoje fala e até canta.
Libras é ainda mais fácil - No entanto, para ele, ainda é mais fácil se comunicar por meio da língua brasileira de sinais, libras, ''porque muitas pessoas não olham para as outras enquanto estão falando, então fica difícil ler os lábios''.
A diretora técnica do Iles, irmã Giulia Consorte, explica que, antigamente, a leitura labial era mais utilizada porque as famílias desconheciam libras. ''Mas com a criação da libras ficou mais fácil falar com as mãos do que ficar olhando para o outro'', justifica.
No instituto, as crianças são estimuladas desde pequenas a associar libras à leitura labial para se comunicar. Mas enquanto uns tem mais facilidade, outros podem passar a vida sem desenvolver a técnica, que também deve ser aprendida pela família, assim como libras.
Estímulo para inclusão - Para a pedagoga Cleusa de Oliveira, instrutora de libras do Iles, aprender a ler lábios auxilia a inclusão do deficiente auditivo na sociedade e é importante também para as famílias que desconhecem a linguagem de sinais.
''As duas formas de comunicação são importantes para que o surdo tenha um conhecimento mais amplo do mundo. E na escola precisamos oferecer de tudo ao aluno'', justifica Cleusa.
Conforme a pedagoga Helaine Cristina Alves, que também ensina libras no instituto, o domínio da técnica vem com muito treinamento. Ela explica que primeiro a criança é estimulada com uma imagem da palavra. ''Em seguida, a professora lê a palavra, sílaba por sílaba, associando cada letra ao símbolo correspondente na língua de sinais. Depois, termina por ilustrar um possível uso da palavra com gestos.''
Leitura labial na conversa - ''A leitura labial é difícil porque é preciso atenção e só pode ser feita numa conversa entre duas pessoas. Quando a conversação envolve mais gente fica complicado para o surdo acompanhar e ele acaba usando libras'', completa Cleusa.
Segundo ela, num grupo onde só há deficiente auditivos, é comum apenas o uso da língua de sinais. Já quando também há ouvintes reunidos, o surdo acaba praticando mais a leitura labial, ''que auxilia ainda na fala, estimulada pela fonoaudiologia''.

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