Lenhadores têm dura jornada no litoral
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sábado, 17 de maio de 1997
Dary Júnior 
Enviado Especial
Albari RosaCarga pesadaTrabalhadores de Bonguaçu erguem em dupla os troncos de árvore cortados para as madeireiras: completa falta de assistência trabalhistaAri Mortari, 37 anos, lenhador. Maltrapilho, corta pinus nove horas por dia sem equipamento de segurança (capacete, luvas, botas). Também não tem carteira assinada. Mora com a mulher e dois filhos em um casebre de dois cômodos. Se a produção for boa, vai ganhar R$ 200,00 no final do mês, dinheiro que só dá para a comida da família. É o perfil típico do trabalhador da localidade de Boguaçu, em Guaratuba, área de reflorestamento na divisa com Santa Catarina.
Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), 13º salário, férias, Previdência. Nos 3 mil hectares da região, isso existe apenas para 40 trabalhadores vinculados à madeireira Comfloresta, dona da área. A responsabilidade pela regularização dos lenhadores terceirizados é das empreiteiras, se esquiva o presidente da empresa sediada em Joinville (SC), Antônio Fernandez, 46 anos. Ele comanda um complexo que reúne 672 funcionários - mais mil via terceirização.
Segundo Fernandez, as empreiteiras contam com cerca de 40 lenhadores na área de reflorestamento de Guaratuba. Embora admita que sua empresa monitore a atividade na região, ele afirma desconhecer condições precárias. Exploração? Isso é conversa fiada, garante. O empresário diz que precisa zelar pelo nome da Comfloresta, madeireira com faturamento anual de R$ 20 milhões e proprietária de 30 mil hectares de pinus no Paraná e em Santa Catarina.
Já o cotidiano de Mortari, homem cujo convívio com o machado já dura dez anos, mostra que a exploração é coisa séria. Natural de Irani, Oeste de Santa Catarina, o lenhador foi trazido por uma empresa de terceirização de mão-de-obra. Mas nós vamos registrar os nossos empregados, assegura o encarregado Arlindo Borsatti, 37 anos, da empreiteira Meira, preocupado com a possível repercussão da reportagem.
A exemplo da Meira, há muitas empreiteiras que exploram os trabalhadores ali e nas localidades próximas. Tadeu Bonassoli, 46 anos, paranaense de Lapa, é empreiteiro desde 1977. Não assino carteira porque os custos são altos e a madeireira paga pouco pelas toras, tenta justificar. A Comfloresta compra o metro cúbico de madeira por R$ 2,84. Os valores são de mercado, rebate o presidente da empresa, que tem duas serrarias na área.
Fugitivos do desemprego, os trabalhadores se submetem às condições precárias. Preciso sustentar a mulher e a filha que estão em Laranjal, no Sudoeste do Estado, argumenta Osni Borges, 28 anos, contratado por Bonassoli. Como o empreiteiro ameaça parar a derrubada de pinus por causa do preço, ele pensa que a situação pode piorar. Se der para tirar o dinheiro da passagem de volta já é lucro, completa.
O lenhador Pedro Lima, 50 anos, tem saudade da década de 70, quando ajudou a construir túneis entre Apucarana e Ponta Grossa. Cheguei a ganhar oito salários mínimos por mês naquela época, recorda. Com a renda encolhida para R$ 200,00 mensais, este gaúcho de Soledade trouxe a mulher e cinco filhos para auxiliá-lo no trabalho. Estou com a perna esquerda machucada, mas não posso parar de trabalhar, revela, enquanto vê seus companheiros carregarem, em dupla, toras que pesam de 20 a 150 quilos.


