De cabeleira loira, ela tinha o hábito de matar aulas se escondendo no banheiro. Entrava no sanitário e fazia hora. Um dia, caiu e bateu a cabeça no vaso. Ficou vagando por ali com cicatrizes pelo rosto e chumaços de algodão no nariz. Um dos boatos mais conhecidos nas escolas brasileiras, a história da "loira do banheiro" é um exemplo de como as lendas urbanas se mantêm vivas de geração em geração. Apesar de uma mudança aqui ou um novo detalhe acolá, as versões continuam trazendo representações da cultura popular, explica a psicóloga clínica junguiana Pâmela Salles, que ministrou recentemente o curso "Lendas Urbanas de Londrina: dos anseios às representações", que fez parte do programa de capacitação de férias oferecido à comunidade externa pelo Centro Universitário Filadélfia (UniFil).
A iniciativa também fez parte dos projetos do Laboratório de Psicologia Social da Religião da instituição, o primeiro do Estado, e reuniu 13 lendas que assombraram os londrinenses em décadas passadas. "As lendas urbanas representam experiências e como isso influencia em nosso cotidiano. Essas representações vão circulando pelas comunidades e tentando explicar ou justificar acontecimentos inesperados, medos e anseios", explica a profissional. O curso teve como finalidade adentrar nas relações, processo grupais e aspectos da religiosidade nos símbolos que permeiam os relatos.
Uma das lendas de Londrina estudadas durante o curso é a do "Lobisomem do Jardim Tókio". O caso foi bastante difundido no bairro da zona oeste em 1987. Naquela época, relata Pâmela, fatos estranhos começaram a acontecer depois que o sol baixava. Galinhas, gatos, cachorros e até uma égua apareceram mortos nas proximidades de um córrego. O rastro de sangue intrigou os moradores e os levou a mudar trajetos à noite, trancar portas e janelas e evitar passar por perto do córrego. Suspeitou-se até que houvesse na região um filhote de lobo, criado por algum vizinho. Houve quem dissesse ainda que um lobisomem perambulava por ali. "Chegamos a ver reportagens sobre o assunto, feitas em 1987 e 2001, com testemunhos de moradores. É um caso que temos uma fonte melhor, não só o boca a boca", comenta Pâmela. Anos mais tarde, alguns moradores já associavam os acontecimentos com a presença de um jacaré no córrego ou uma piada de mau gosto.
A aposentada Sebastiana Batista Pereira, de 71 anos, é uma das que já ouviram falar do tal lobisomem. Moradora da região do Jardim Tókio há 40 anos, garante que nunca viu nada, mas que já ouviu essa e outras histórias de dar medo. "O pessoal comentava que existia alguma coisa sim no Tókio, que tinha lobisomem", diz. Não muito distante dali, a lenda era de que uma pessoa morta aparecia num colégio municipal. "Isso eram as crianças que falavam", pontua.
Membro do Laboratório de Psicologia Social da Religião da UniFil, o professor Mauro Duarte analisa que as lendas urbanas são o resultado de um cruzamento entre histórias pessoais e um contexto histórico-cultural. "É a forma como as pessoas descrevem a história e como ela vai se transformando no tempo", comenta. Ele também avalia que, passados os anos, o que muda não é a lenda, mas o discurso sobre ela, a forma como ela é contada. "Um exemplo disso é a lenda do vampiro, filmado de uma maneira décadas atrás e depois como alguém que brilha no sol, como em ‘Crepúsculo’. Em todos os casos, ele é um ser que suga a energia do outro", pondera.
E os pesquisadores não têm dúvida. Se as lendas urbanas se propagam tanto ano após ano é porque, de fato, têm uma função. "Estão carregadas de simbologia e precisam ser valorizadas, não subestimadas. São como uma tentativa de solução de questões que grupos e certos movimentos têm ao lidar com o desconhecido", sustenta Duarte.

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