''Na hora eu ouvi um estampido e quando a bala me acertou foi como se eu levasse um empurrão. Eu pus a mão nas costas e vi o sangue''.
Sentado no sofá de sua casa, no Jardim Igapó (Zona Sul), o porteiro e eletricista Juarez Alves, de 40 anos, narra o que sentiu quando levou um tiro no mês passado. Ele não é policial, nem bandido e não estava em nenhuma guerra. Alves simplesmente se envolveu numa discussão de trânsito com uma policial civil que, à paisana, atirou em suas costas com uma pistola .40.
Alves lembra bem daquele 19 de julho, por volta do meio dia, quando trafegava de moto pelo Centro de Londrina. ''Eu estava passando pela (avenida) Rio de Janeiro, próximo à antiga rodoviária, quando tomei uma fechada dela (a policial). Quase fui jogado na calçada. Depois eu a alcancei no sinaleiro da (rua) Sergipe com a (rua) Pernambuco, parei do lado dela e disse 'você está doida?', e fui um pouco mais para frente esperar o sinal abrir''.
Quando a luz verde acendeu, Alves acelerou e em seguida sentiu o tiro. ''Depois ela (a policial) veio correndo para cima de mim, gritando 'cadê a arma? Cadê a arma?'. Eu virei e falei 'que arma? Sou trabalhador'. Quando ela percebeu o que tinha feito, colocou a mão na cabeça. Eu falei umas palavras feias para ela também, afinal, quem não agiria assim numa situação dessas? Mas como eu perdi muito sangue, acabei ficando inconsciente quando o Siate chegou'', detalha.
Ao chegar à Santa Casa, Juarez passou por uma cirurgia, que durou cerca de quatro horas. ''Perdi o baço, parte do rim e o meu fígado precisou ser reconstituído'', contou. O porteiro ficou sete dias na UTI e outros três no quarto do hospital. ''Dois dias passei em coma, então não lembro de nada'', diz.
Mesmo deixando o hospital, Alves ainda não recebeu alta. ''O médico recomendou 45 dias de repouso. Agora estou parando de tomar antibióticos. Só tomo alguns remédios para dor mesmo. Ainda estou com um dreno no rim também'', conta. Ele confessa que sua casa está sendo sustentada graças à ajuda da família e de amigos.
''Ainda não consegui o auxílio-doença, só no dia 19 vou fazer a perícia para depois tirar. Mas, de qualquer forma, já perdi praticamente metade da minha renda, pois tinha dois empregos: um registrado como porteiro e outro como bico de eletricista. Quando tomei o tiro, estava indo para o segundo trabalho'', lembra.
Alves vive com a esposa Jaqueline e a filha Rafaela, de 1 ano e 3 meses. ''Quando percebi que tinha tomado o tiro, um monte de coisa passou pela minha cabeça, principalmente minha filha. Se morresse, quem cuidaria da casa?'', diz.
De acordo com a esposa do porteiro, além de se recuperar dos ferimentos físicos, Juarez precisa superar o trauma psicológico. ''Ele está tendo muita dificuldade para dormir. Vou até falar com o médico para receitar algum calmante'', observa.
''No meio da noite surgem uns lapsos, lembro do barulho do tiro, de quando fiquei cercado de aparelhos e acordo meio desesperado. Para dormir de novo fica díficil. Esses dias ouvi barulho de uma moto estourando o escapamento, quase me joguei no chão'', desabafa Alves, que ainda guarda o projétil disparado pela policial civil. ''Ficou alojado na costela, num lugar que não oferece risco. O médico falou que foi melhor porque caso (a bala) atravessasse faria um estrago maior''.

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