Trocar um dedo de prosa com o pioneiro londrinense Sebastião Parreira é uma oportunidade preciosa para quem quer conhecer um pouco mais da história de Londrina. Nascido em 12 de junho de 1921, na pequena cidade de Restinga, interior de São Paulo, Parreira chegou a Londrina em 1935, quando a cidade que se tornou uma das mais importantes do Sul do País ainda era um ''lugarejo'', como ele mesmo diz. Bem humorado e cheio de histórias para contar, o pioneiro recebeu a reportagem da FOLHA na varanda da sua casa, uma das duas únicas da Rua Pio XII que resistiram à ''invasão'' dos prédios e estabelecimentos comerciais que, naturalmente, tomaram conta da Região Central.
Amante da leitura desde o início da adolescência, ele começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, alfabetizando trabalhadores rurais que moravam próximos ao sítio onde o pai de Sebastião, João Parreira, fora contratado para desbravar e plantar. Uma área de 60 alqueires onde hoje é a Zona Sul de Londrina.
E foi o apreço aos livros que mudou o destino do menino que vez ou outra ajudava o pai na lida da lavoura. ''Era um domingo, chovia bastante quando um caçador perdido bateu na nossa porta. Era Paulo Pereira Lima, proprietário de uma loja chamada Casa Rádio. Demos abrigo a ele que, impressionado com os livros que eu tinha, pediu permissão ao meu pai para me arrumar um trabalho na cidade. E assim foi, o Paulo conseguiu para mim um emprego nas Casas Pernambucanas, como caixa e escrita. Isso foi em 1938'', recorda o pioneiro que era responsável por receber dos clientes e anotar em um livro todas as movimentações financeiras.
Pouco tempo depois, indicado por um ex-funcionário das Pernambucanas, foi convidado a trabalhar nas Casas Fuganti, loja de departamentos que marcou época. ''O movimento lá era demais. Para você ter uma idéia, no Natal de 1946 faltaram brinquedos para vender'', ressalta. Na Fuganti, trabalhou de 1941 a 1982. Começou como auxiliar de escritório e chegou a chefe de departamento pessoal.
O salário melhor permitiu-lhe trazer a família que estava no sítio para a cidade. Alojou o pai, a mãe e os nove irmãos na Rua Ceará, onde hoje é a Rua Professor Hugo Cabral. Em 1947, casou-se com Dejanira Menezes e foi morar no lugar onde está até hoje. A única alteração é que a casinha de madeira foi substituída por uma de alvenaria.
Convidado a falar sobre as diferenças da Londrina das ruas de barro e casas de madeira para a Londrina de hoje, ele logo recorda de uma mudança que não é física, mas de costumes. ''O que existia antigamente era muita amizade. Todo mundo se conhecia. Hoje não é assim'', lamenta. ''As oportunidades também eram mais frequentes. Tinha trabalho para todo mundo'', completa.
Mesmo sem cursar nenhuma faculdade, durante um bom tempo Sebastião Parreira foi o maior entendido de leis trabalhistas do Norte do Paraná, tanto que deu cursos e palestras em diversas instituições como Sesc e Senac e até para os alunos da Faculdade Estadual de Direito, que hoje é a Universidade Estadual de Londrina (UEL). ''Cheguei a cursar quase um ano do curso de Direito na primeira turma da UEL, mas naquele tempo a universidade pública era paga, daí abandonei por falta de condições financeiras. Então aprendi tudo sozinho, com meus próprios livros''.
Depois que completou sua missão nas Casas Fuganti, foi convidado a trabalhar no restaurante ''O Casarão'', onde atuou como gerente até 1997. Desde então se dedica somente à leitura, um exercício diário para o cérebro que o mantém tão lúcido. ''A FOLHA de LONDRINA eu leio todos os dias'', diz orgulhoso. Já a saúde do corpo ele atribui às caminhadas que fez a vida toda. Sebastião nunca aprendeu a dirigir automóveis e nem tem habilitação para tal, por isso sempre fez a pé o percurso de casa para o trabalho. ''Ia caminhando e assobiando, tinha gente que de longe já sabia que era eu que estava andando só pelos assobios''.
Pai de três filhos, dono do terceiro título de eleitor da comarca eleitoral de Londrina e da linha telefônica que tinha o número 2174 e hoje já tem quatro dígitos a mais, o pioneiro faz questão de dizer que é apaixonado por Londrina. E quando o repórter o convida a destacar qual é o mais ilustre cidadão londrinense que ele conheceu em tantos anos nesta terra vermelha, ele não tem dúvidas. ''É a minha mulher'', finaliza, com os olhos marejados, lembrando da amada Dejanira, que faleceu há três anos.

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