Sem alternativas de emprego no pequeno município de Florestópolis, no Norte do Estado, a dona de casa Rita de Cássia Gregório, 35 anos, começou a trabalhar no corte da cana aos 14 anos. A lembrança dos oito anos em que cumpriu o ofício são de humilhação e sofrimento. ''A gente levava a própria água, não tinha banheiro e comia a comida gelada no sol quente'', recorda.
O trabalho era feito sem qualquer equipamento de proteção individual (EPI). ''Também não tinha horário de parar. A gente cortava cana até tarde da noite'', relata. A prática de não estabelecer antecipadamente o preço pago pela cana cortada também excluia os trabalhadores do acesso ao crédito no comércio local. ''Como não tinha garantia de salário, ninguém queria vender para os cortadores.''
Rita chegou a ficar seis meses sem pagamento. A usina, diz, oferecia só o vale aceito no mercado e na farmácia da empresa. ''Trabalhei a troco de comida. Me sentia como uma escrava'', fala. Somado às lembranças dos anos dedicados ao corte da cana, ela guarda um edema no braço - causado pelo esforço físico - que jamais foi curado. ''Nunca mais pude trabalhar.''
Os relatos do ex-cortador José Paulino, 45, que hoje atua como agente da Pastoral da Terra, são parecidos. Iniciado no trabalho aos 9 anos, permaneceu por 18 anos na lida no interior de São Paulo. Suas piores recordações são comida estragada, alojamento com um banheiro para 200 pessoas e o ''gato'' (responsável pela frente de trabalho), que agredia fisicamente os trabalhadores que não seguiam as regras.
Em Florestópolis, quando ele e os colegas ficaram sem salários, no final dos anos 1980, comandou uma paralisação e nunca mais conseguiu emprego nas usinas. A perseguição, porém, não o tirou da luta em defesa dos direitos dos trabalhadores. ''Continuei brigando para acabar com o transporte em caminhões, a falta de registro, as condições degradantes no ambiente de trabalho. Minha vida pessoal foi prejudicada, mas vencemos a batalha'', comemora.
Entre os cortadores de cana mais antigos, os relatos de submissão ao trabalho análogo à escravidão são ainda mais frequentes. A senhora de 76 anos que hoje trabalha na colheita do café, recorda dos tempos em que cortava cana de chinelos e facão na mão. Nos períodos em que não recebia salário, trocava vales no mercado da usina, o que nem sempre garantia comida na mesa. A prática, conhecida como '''oreia' de jegue'', povoa as memórias de moradores mais velhos do acampamento Manoel Jacinto Correia, uma área invadida pelo Movimento Sem Terra (MST) no município.
Diante dos questionamentos sobre trabalho escravo, relatam a situação vivenciada em 2008, quando trabalhadores foram libertos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). ''As pessoas moravam em casas caindo aos pedaços, sem água, luz, banheiro e comida suficiente. Era uma verdadeira exploração'', conta Jaci Ribeiro Borges, acrescentando que, depois da ação do MTE, nenhum dos libertos permaneceu na região.

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