Lembranças de quem perdeu a visão
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Davi Baldussi <br> Reportagem Local 
''Qual a lembrança mais viva que tenho do tempo em que enxergava?'' Parece que ninguém havia perguntado isso antes a Jair Domingos da Silva. Depois de uma breve pausa, ele responde: ''Acho que do trabalho, né? Era pintor, todo dia lidando com tinta, misturando para criar novas tonalidades. Essa foi a primeira coisa que me veio à mente''.
Depois de alguns instantes o ex-pintor - que lembra das cores, mas não as enxerga - recordou outros momentos, esses bem mais distantes na memória. ''Fui criado na Zona Rural de Ivaiporã (Norte). Algo que lembro bem é da égua Baia, na qual montava quando pequeno. Era inteirinha marrom. Meu padrinho deixava a gente montar nela porque era mansinha.''
Aos 10 anos, Silva foi boia fria em plantações de feijão e milho. Pouco depois ele se mudou com a família para Londrina, mas continuou trabalhando no campo. ''Estudei só o primário. Depois de mais uns anos na área rural entrei na construção civil, como servente de pedreiro.''
Nessa profissão ele trabalhou em reformas de aeroportos: Londrina, Congonhas (São Paulo) e Navegantes (Florianópolis), na década de 1980. ''Se pudesse escolher apenas uma coisa para ver hoje gostaria ver um avião. De vez em quando ouço o som e ainda tento olhar para cima.''
Em Londrina o ponto mais marcante na memória de Silva é a barragem do lago Igapó. ''Assim que cheguei na cidade, com uns 11 anos, ia até lá com meus amigos. Teve uma vez que a gente até pegou um barco e fomos navegando. Quando o dono viu já estávamos no meio do lago'', recorda aos risos.
Em 2005 Silva deixou de enxergar. Na época ele estava pintando um dos hóteis mais conhecidos da cidade. ''Trabalhei normalmente na segunda e na terça-feira. Mas na quarta me deu uma dor de cabeça. Até fui procurar minha esposa no trabalho dela para pegar algum remédio. Só lembro que estava sentado na recepção. No outro dia acordei cego.''
O pintor sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Os meses que seguiram o episódio foram os mais difíceis da vida, afirma Silva. ''Estava entrando em depressão quando um médico me indicou o Instituto de Instrução para Cegos. Ali encontrei pessoas em situações piores que a minha e me reanimei.''
Ele voltou a estudar, aprendeu a ler e escrever em braile, e está no 1º ano do Ensino Médio no Centro Estadual de Educação Básica para Jovens e Adultos (Ceebja).
Diariamente Silva supera desafios, principalmente de locomoção. No ano passado por pouco não se machucou gravemente enquanto caminhava perto de sua casa. ''Caí dentro de um bueiro, que estava sem tampa. Sorte que só machuquei um pouco a perna esquerda'', conta.
Apesar da deficiência visual e de ter começado a trabalhar quando ainda era criança, Silva não recebe aposentadoria nem auxílio doença. ''Era pintor autônomo, não contribuía, por isso não consegui me aposentar. E quando procurei o auxílio-doença falaram que a renda per capita da família impedia que eu recebesse o benefício'', contou.
Ele vive com a esposa e três filhos nos Cinco Conjuntos (Zona Norte). ''A gente sobrevive basicamente do salário de zeladora da minha esposa e também da ajuda de meus irmãos.''


