‘‘Um país se faz com homens e livros’’. A frase de Monteiro Lobato representa o que muitos especialistas acreditam: o poder da literatura é transformador. Comemorado em todo mundo, sempre no dia 23 de abril, o Dia do Livro é uma data desconhecida por muitos, principalmente por aqueles que ainda não sentem o mesmo prazer pelas letras como os ‘‘devoradores de livros’’.
  O médico londrinense Luiz Parellada é uma dessas pessoas. Só em casa tem cerca de mil obras. Ele procura passar a paixão pela literatura para seus filhos e netos, e conta que o gosto pelas letras surgiu na infância. ‘‘Vivi numa época anterior à televisão, então, na minha infância, o que se fazia era ler. À noite, quando meus pais nos colocavam na cama para dormir, sempre buscávamos um jeito de ler escondido. Depois, eles voltavam no quarto e colocavam a mão no abajur para ver se estava quente, e então descobriam o que tínhamos feito’’, lembra.
  História, arqueologia, biologia são alguns assuntos que atraem o médico. Além de comprar, ele também faz um ‘‘intercâmbio com os amigos’’, o que possibilita a leitura de obras que não têm. Nascido na Espanha, Parellada não acredita que a cultura espanhola tenha influenciado nesse seu hábito. Para ele, hoje em dia as pessoas têm se interessado mais pela imagem (TV, Internet), fator que acaba contribundo para a falta de interesse em pegar um livro para ler. ‘‘O livro nos faz sonhar. Você pode trabalhar com a sua imaginação, é uma coisa fantástica’’, diz.
  A paixão pela leitura surgiu de uma maneira inusitada na vida do funcionário público, João Henrique Ribeiro Marçal, 34 anos. Há dez anos, quando passou a trabalhar em meio a diversos estudantes, Marçal sentiu necessidade de ‘‘ler mais’’ para poder ‘‘interagir melhor’’ com os colegas de trabalho. Na época, ele ainda não estudava. Hoje, cursa teologia e confessa que a paixão pelas letras aumenta a cada dia. ‘‘Passei a ler de tudo, assim como faço hoje. Tenho cerca de 150 livros que variam desde filosofia, política até religião. Sempre que posso estou comprando algum livro novo’’, comenta.
  O hábito adquirido pela ‘‘fome de conhecimento’’, fez Marçal chegar a ler 14 livros e a Bíblia inteira em um ano. Essa paixão do jovem pela leitura poderia ser considerada o que os matemáticos chamam de desvio estatístico, pois formar leitores como ele no Brasil é ta-
refa difícil.
  Segundo a Câmara Brasileira do Livro, os brasileiros não são habituados a ler pois o índice de leitura no Brasil é muito baixo quando comparado com países desenvolvidos. De acordo com uma pesquisa feita pela instituição, em 2001, constatou-se que a média per capita de livros lidos era de 1,8. Na Inglaterra, essa média chega a 4,9. Nos Estados Unidos, é de 5,1 e, na França, atinge 7.
  ‘‘Já pensei em montar uma biblioteca setorial e sempre que posso estou emprestando livros para alguém. As pessoas que lêem são incluídas socialmente, desenvolvem o senso crítico e falam melhor. Às vezes, você pode nem ter uma faculdade nem nada, mas quando lê, você expande a sua mente’’, obser-va Marçal.##

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