Antes de um Rimbaud, Dostoievski ou Bukowski, qualquer livraria deve ter Paulo Coelho, com direito a um lugar de honra na estante de lançamentos, se quiser vender outros autores que apesar da importância da obra são apenas ''os outros'' massacrados debaixo da pilha do 'top list' dos mais vendidos.
Biscoito fino das livrarias, Paulo Coelho é saboreado no mesmo mercado editorial do tipo pronta entrega, em que basta a indústria do cinema ou TV emplacar um filme ou minissérie que no dia seguinte um livro sai do prelo, com venda garantida.
O leitor não precisa procurar muito para encontrar nas livrarias, lojas de departamentos e supermercados, com a chancela global, os livros ''Roberto Marinho'', de Pedro Bial, e ''Fantástica Volta ao Mundo'', de Zeca Camargo, podendo aproveitar para colocar na sacola também o livro ''Mad Maria'', escrito em 1980 por Márcio Souza, e que apenas num plim-plim, passou a ocupar o sexto lugar entre os mais vendidos ao inspirar a minissérie da Rede Globo.
Aqueles leitores que gostam de passear pela terra dos clássicos estão se sentindo abandonados num deserto onde as livrarias não mantêm livros em estoques. Beduíno dessa desértica paisagem, o leitor passa sede no mercado editorial brasileiro que, em 2003, lançou 35.590 títulos, com um volume de 299.400 exemplares produzidos.
Ainda que sejam vendidos 255.830 livros por ano no Brasil, a média é de 1,05 livro lido por habitante anualmente, o que representa milhares de páginas a menos que na Colombia (2,4 por pessoa), Estados Unidos e Inglaterra (5 por pessoas). Mesmo assim, os leitores brasileiros se ressentem da estratégia de mercado das livrarias, que preferem não ter mais livros em estoque.
''Fui na UEL e peguei a lista de livros para uma prova de mestrado e não encontrei nas livrarias. Na biblioteca da universidade tem, mas não pode tirar fotocópia do livro inteiro. Nem em sebos eu encontrei, onde me disseram que eu não era a primeira pessoa procurando aqueles títulos'', afirma o jornalista Rodrigo Parra, que queria comprar os livros ''A Política como Vocação'' (Max Weber); ''Ensaios de Sociologia'', do mesmo autor, ''Nova República'' (Florestan Fernandes), entre outros.
O conceito sobre o que é variedade em tempos de internet está sendo revisto pelas livrarias em todo o País. Leitores, como Parra, que gostam do cheiro dos livros e que entram numa loja com a esperança de atravessar a vereda de títulos de Paulo Coelho para mergulhar nos poemas de TS Elliot, acabam nadando no seco.
''É imcrível uma cidade como Londrina, com 450 mil habitantes, ter tão poucas livrarias. Não foi a primeira vez que fui a uma delas e não encontrei o que procurava'', lamenta Parra, com uma lista de livros na cabeça que gostaria de ter nas mãos.
Quem está do outro lado do balcão se desculpa.''Ninguém mantém mais estoques. Se a gente deixa os livros em prateleiras, o manuseio acaba deixando os exemplares com aparência de velhos. O público quer as edições mais novas'', afirma a gerente da Livraria Arles, Elaine Oliveira, lembrando que as portas dos estoques na loja foram fechadas há uns quatro anos e que livro encalhado significa prejuízo, já que a livraria não trabalha por consignação.
Mesmo que as livrarias tentem resolver a falta de livro nas lojas com pedidos às editoras, a espera pode terminar com um capítulo inesperado.''Recentemente, aconteceu que uma faculdade pediu um livro. Quinze alunos fizeram pedido. Porém, a editora não enviou com tempo, não se responsabilizando pelo prejuízo dos alunos'', exemplifica a gerente.
''O comércio está trabalhando numa outra perspectiva, mas de um modo geral deveria oferecer oportunidade de contato com as obras. Achar que um livro não pode ficar na estante é uma distorção de conceito. Outro problema das livrarias é que nivelam o público, não distinguindo um leitor adulto de uma criança ou um pesquisador. Faltam essas estratégias, que para os leitores são importantes. A compra de um livro não é igual a de roupa ou perfume, já que o leitor é mais exigente. É claro que uma loja não terá 200 exemplares do mesmo livro, mas que haja um, quem sabe. Porém, o que acontece é que nem isso existe'', afirma o professor londrinense Rovilson José da Silva, doutorando em Leitura pela Unesp - Marília.
Adriana Marteli Davantel, gerente da Livraria Bom Livro, confirma que os clássicos da Literatura Brasileira são lembrados apenas no começo do ano ou quando sai a lista de livros do vestibular. ''Fica complicado manter estoque desses livros porque o brasileiro não tem hábito de leitura. Só quando a escola pede é que nos procuram. Não vem ninguém comprar porque conhece o autor'', disse Adriana, acrescentando que a livraria procura ter os livros mais requisitados pelas universidades. ''Porém, temos apenas alguns volumes porque se fazemos pedido às editoras, o livro é nosso. Existem livros que chegam a custar de R$ 300,00 a R$ 400,00. Se não vendermos, temos que arcar com o prejuízo'', aponta Adriana.

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