Leiteiros de rua ainda existem
Se é nostálgica a cena de uma vaca pertinho de prédios, tão nostálgica quanto é a cena de um homem montado em uma charrete entregando de porta em porta o leite que há pouco foi tirado da vaca. Pois é, os ''leiteiros de rua'' ainda sobrevivem em Londrina.
Eles chegaram a formar a Associação dos Produtores de Leite de Londrina, com 13 associados. A média de produção de cada um é de 50 litros por dia. O problema é que oito dos produtores estão dentro da conturbada Fazenda Refúgio (Zona Sul). Comprada em 1991 pela prefeitura para a construção de casas populares, o que é impossível no terreno rochoso e muito inclinado - o que rendeu ao local o apelido de ''pirambeira'' -, a fazenda é até hoje alvo de disputa judicial.
O projeto da atual administração municipal é transformar a Refúgio em um parque e o recado para os produtores de leite é bem claro: cedo ou tarde eles terão que sair. ''Não há chance de eles continuarem por lá'', ressalta o secretário municipal do Ambiente, Carlos Levy.
Enquanto isso, os leiteiros continuam entregando seus produtos. Gilberto da Silva está há 18 anos nesse ramo e vende seu litro de leite por R$ 1,50. Ele atende a Zona Sul e nunca volta com garrafa cheia para casa. ''O forte do leiteiro de rua são os bairros mais pobres'', comenta.
Anotando na cadernetinha para receber no fim do mês, ele comemora por não levar calotes. Já os clientes são só elogios para o produto. ''Cuido de duas senhoras de 91 anos e de uma de 79 anos. Este leite é o melhor remédio para elas. Minhas 'vózinhas' não ficam sem'', destaca a cuidadora de idosos Célia Quintino da Silva.
Mas Gilberto sabe que vende ''in natura'' um produto que devia passar por pasteurização. ''Sabemos que uma hora ou outra vamos ser cobrados quanto a isso. Nos malham muito, mas nunca nenhum dos meus clientes passou mal'', comemora o leiteiro, que segue a vida em meio as incertezas, tocando o cavalo ''Bainho''.
Projeto
''Eles desenvolvem uma atividade econômica de caráter agrícola, mas infelizmente estão na área urbana. Queremos apoiá-los e abrir mercados para eles'', comenta o secretário de Agricultura de Londrina, Gervásio Vieira, sobre os leiteiros de rua.
De acordo com Vieira, o ideal seria que eles adquirissem áreas próprias para criarem suas vacas. ''Eles podem se aproveitar do crédito rural. O problema é que esse crédito é de R$ 40 mil, que não é suficiente para comprar um alqueire de terra perto da cidade''. O secretário também informou que há uma discussão na prefeitura sobre a possibilidade de o município investir em um laticínio e comprar leite dos produtores locais para a merenda escolar e para distribuir a crianças com mais de quatro anos de idade. (W.S.)





