Leishmaniose volta a preocupar na zona sul
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de janeiro de 2003
Renê Muller<br> Reportagem Local 
O lavrador Odair dos Reis, o Có, 35 anos, sempre morou na pacata região do Vale do Cambezinho (zona sul de Londrina). Mas a calma do local está sumindo, não por causa dos ladrões ou do barulho, e sim por uma doença, transmitida pelos mosquitos, a Leishmaniose Tegumentar. ''Estou com mais medo de mosquito do que de ladrão'', confessa. Depois de 81 casos registrados em 2000, e apenas 55 confirmados em 2001, a moléstia voltou a crescer em Londrina, chegando a 89 casos em 2002. Foi um crescimento de 61% sobre o total de 2001.
Este ano, apenas dois casos foram repassados à Vigilância Epidemiológica até ontem, mas no Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Londrina, onde são tratados e orientados os pacientes com a doença, já são seis novos pacientes em tratamento.
É a primeira vez que Có está sentindo os efeitos da doença transmitida por um pequeno mosquito de asas brancas. Ela causa uma úlcera na pele, que, se não curada rapidamente, acaba obrigando o infectado a um demorado e dolorido tratamento à base de injeções. O lavrador ainda não sabe se a doença é mesmo aquela causada pelos protozoários do tipo Leishmania, mas diz que é ''quase certo'', de acordo com os sintomas e com o desenvolvimento visual da úlcera, um pouco acima do calcanhar direito.
''É como se tivesse um bicho vivo ali dentro.'' O lavrador espera a confirmação da biópsia. Se, como tudo indica, estiver sofrendo com a leishmaniose, terá que tomar pelos menos 40 ampolas em injeções. Có conhece outras oito pessoas das proximidades que tiveram a doença no último ano, entre as quais um irmão.
A dona de casa Sandra Pereira de Oliveira, 25, também sofreu com a úlcera causada pelo protozoário. E num local bem incômodo: entre a sobrancelha e as pálpebras da vista esquerda. ''Inchou tanto que fiquei como o olho fechado um bom tempo'', lembra. ''De manhã, quando acordava, ficava ainda pior.'' Tudo começou com aquele vermelhão típico de mordida de inseto. Passou para um inchaço, e, tal como a úlcera de Có, formou um cascão de pele dura, seca. Foram três meses de tratamento.
O temor dela é com o filho Carlos Daniel, de dois anos e nove meses. Os mosquitinhos de asa branca não param de incomodar, e até atravessam os furinhos da tela do mosquiteiro do menino. ''Nem todos eles transmitem a doença, mas eu fico preocupada'', ressalta. No posto de saúde onde ela foi atendida, o da Usina Três Bocas (zona sul), a expectativa é que o caso de Có seja a primeira confirmação de leishmaniose do ano.
Em 2002, foram dois casos tratados ali. Nos três anos anteriores, não houve ocorrências. ''Não tivemos ninguém com dengue ainda. Aqui, a nossa preocupação é maior com a leishmaniose'', diz o enfermeiro Edvilson Cristiano Lentine, coordenador do Saúde da Família e dos postos de Saúde de Três Bocas e do distrito vizinho, Maravilha.®MDNM¯ ''Em Maravilha, também tivemos dois casos no ano passado'', comenta o enfermeiro.


