Com apenas três anos, a filha do artesão londrinense Poka Marques foi diagnosticada com leishmaniose há 14 dias, depois de mais de três meses de consultas médicas. Em tratamento, ela precisa de mais seis doses de medicamento injetável para se curar.
Uma simples picada na testa da menina transformou-se em uma ferida de difícil cicatrização, conta. Ela foi levada ao pediatra que, ao constatar a presença de gânglios no pescoço, encaminhou-a a um infectologista. ''Ela fez ultrassom e até biópsia, sem resultados'', recordou o pai.
Depois de eliminada a hipótese de câncer, após consulta com um hematologista, a criança visitou um dermatologista que matou a charada: a ferida remetia à leishmaniose. ''Estávamos tratando a ferida com pomada, que descaracterizou a doença por um tempo.''
Há 14 dias ela toma injeções para tratar a doença e, segundo o pai, nunca mais apresentou os sintomas. ''Ela nem sabe o tamanho da encrenca.'' Marques aguarda agora a sorologia nos três cachorros da família para descobrir se os animais são hospedeiros.
''Moramos praticamente dentro do Arthur Thomas, onde há gambás, macacos, ratos do mato, que podem ser foco da doença. É um local de risco'', comentou o artesão.
Preocupada, a comunidade se reuniu nessa semana com representantes da Secretaria da Saúde para discutir os riscos da doença. Apesar de estar controlada no Paraná, a prevenção deve ser constante, afirmam os especialistas.
Transmissão
Doença provocada por protozoários transmitida ao homem pela picada de mosquitos flebotomíneos, também chamados mosquitos palha ou birigui, a leishmaniose também é conhecida como úlcera de Bauru.
A leishmaniose visceral é a forma mais severa da doença. É o segundo maior assassino parasitário no mundo, depois da malária: o parasita migra para os órgãos viscerais como fígado, baço e medula óssea e, se deixado sem tratamento, quase sempre resulta na morte do doente. Sintomas incluem febre, perda de peso, anemia e inchaço significativo do fígado e baço.
Já a leishmaniose tegumentar ou cutânea é a forma mais comum e o único tipo registrado no Paraná: uma infecção de pele causada por um parasita unicelular, transmitida pelas picadas da mosca de areia.
Pessoas e outros animais infectados são considerados reservatórios da doença, uma vez que o mosquito pode transmitir o protozoário a outros indivíduos por meio de picadas. Em região rural e de mata, roedores e raposas são os principais hospedeiros, enquanto nas cidades os cães têm esse papel.
De difícil diagnóstico, pois a ferida causada pela picada do mosquito pode ser confundida com outras enfermidades, até mesmo câncer, a leishmaniose é tratada com a aplicação de medicamento injetável, a base de sal de antimônio, que melhora a resistência do indivíduo, favorecendo a cicatrização da lesão, como explica o médico Alceu Bisetto Júnior, do setor de doenças transmitidas por vetores, da divisão de Saúde Ambiental da Secretaria Estadual de Saúde.
Segundo ele, a doença não mata, mas o medicamento também não elimina o protozoário, que pode viver anos no organismo sem se manifestar. ''Medicação é distribuída apenas pelo serviço público e deve ser administrada por 20 dias ininterruptos. Se necessário, são aplicadas mais 20 injeções até a cicatrização completa da ferida. É um tratamento lento e continuado.''
Prevenção é feita por redes ou repelentes de insetos e construção de moradias a distância superior a 500 metros da mata silvestre. ''Quando em área de mata, usar repelente e roupas apropriadas e nunca cortar mato ou pescar ao nascer e no pôr do sol, que é o horário em que o inseto está mais ativo'', recomenda Bisetto Júnior.

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