É como se o medo da punição levasse a uma obediência instintiva: embora a maioria dos motoristas brasileiros ainda não conheça a fundo as leis estabelecidas no ''novo'' Código de Trânsito, que completou seis anos ontem, eles as respeitam porque sabem que ficaram mais rigorosas.
Pelo menos é o que indicam dados comparativos da 2Companhia do Batalhão de Polícia Rodoviária (BPRv), com sede em Londrina, apontando redução no número de acidentes graves. As estatísticas agrupam os períodos anterior e posterior à instauração das novas regras. Entre 1992 a 1997, foram registrados 1.481 acidentes fatais. O número caiu para 1.243 de 1998 até terça-feira. Para o comandante da 2Cia, capitão Sérgio Dalben, a melhora na segurança do trânsito é ainda maior do que mostram os dados, considerando-se um aumento médio de 7% ao ano na frota de veículos em circulação.
''O Código deu uma segurada no número de acidentes, embora ainda estejamos longe do ideal. Agora, precisamos retomar as leis e aperfeiçoá-las'', avalia. Como exemplo do que ainda precisa ser melhorado, Dalben cita a punição de pedestres e ciclistas. ''Isso está previsto no Código mas não foi regulamentado. Um carro se identifica pela placa; e um pedestre, como será identificado?'', questiona, lembrando que caberia ao Conselho Nacional de Trânsito (Contran) definir as regras para aplicar a lei de forma objetiva a lei. A multa para pedestres que atravessarem a via fora da faixa, por exemplo, é de 25 UFIRs metade da multa leve para motoristas.
Também falta aos pedestres e motoristas conhecer melhor o Código, argumenta o comandante. ''Infelizmente não temos a cultura de ler no Brasil. É uma obrigação de todos ler o Código. O trânsito é um constante aprendizado'', apela. De acordo com Dalben, o início de 1998 quando as novas leis foram amplamente divulgadas foi o período em que menos acidentes foram observados na região de Londrina, caindo de uma média de 500 para 260, em fevereiro.
Para os Centros de Formção de Condutores (CFCs), antigas auto-escolas, o novo Código foi muito lucrativo. Desde então, os aspirantes a motorista são obrigados a fazer pelo menos 30 aulas teóricas e outras 15 práticas. O instrutor Paulo Sérgio Fudoli garante que a atualização das leis deu origem a condutores melhores, mais conscientes. ''Houve uma mudança enorme. Os motoristas mais antigos faziam poucas aulas e levavam para o trânsito muitos erros na direção'', afirma. Outra mudança louvável, observa Fudoli, é que os pais ficaram intimidados com as punições e pensam duas vezes antes de entregar o veículo nas mãos de filhos inexperientes.
O caso de Antônio Espírito Santo, 18 anos, corrobora a opinião do instrutor. O rapaz ingressou no CFC sem nunca ter dirigido. ''Eu até pedia, mas meu pai não me deixava pegar o carro'', conta. ''Aprendi bastante nas aulas teóricas. Acho que os motoristas que tiraram carteira antes do Código também deveriam passar por um curso de conscientização''.
A secretária Lucimeire Koga Rodrigues, 24, que vai prestar hoje o exame prático para motorista de carro, confia em sua geração. ''Acho que serei melhor motorista do que meus pais, que foram instruídos numa época em que as leis eram menos rigorosas'', justifica. O taxista Vicente Geraldo, 64, motorista há 42 anos, defende os condutores mais velhos. ''Somos mais conscientes. Os jovens só querem correr, tem muito acidente por causa da agressividade deles no trânsito'', aponta. Ele mesmo admite, contudo, que deixou de cometer ''pequenas infrações'' com medo das multas do ''novo'' Código.

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