Curitiba - A lei que garante a doadores de sangue isenção total nas taxas de inscrição de concursos públicos municipais em Curitiba pode estar colocando em risco a qualidade do material coletado nos bancos de sangue. ''Quando a pessoa doa sangue motivada por interesses escusos, pode mentir ou omitir informações que comprometem a doação'', explica o diretor médico do Hemobanco, Giorgio Balbanzi.
O maior problema, diz o médico, ocorre quando o doador deixa de informar comportamentos de risco. ''Existe um período no qual a doença não é detectada, mas já está presente no sangue'', informa. É o que se chama de janela imunológica. ''As pessoas esquecem que os exames não são 100% seguros e que esses casos colocam em risco a saúde de quem precisa de uma transfusão'', alerta. Uma doação de sangue contaminado pode atingir pelo menos três pessoas.
A enfermeira Suzana Mercer, responsável pela divisão de Hemotologia e Hemoterapia do Hemepar, também questiona os incentivos a doação. ''Vemos que há um aumento acentuado no número de voluntários quando a realização de um concurso está próxima'', diz. ''Como a pessoa tem interesse em garantir a doação para ganhar a isenção da taxa, se sente motivada a omitir informações cruciais'', avalia.
A lei municipal que garante a isenção de taxa em concursos públicos para doadores existe desde 2000. E não é a unica iniciativa do gênero. A Assembléia Legislativa aprovou a concessão do direito à meia-entrada em eventos culturais para quem doa sangue. Nos dois casos, a avaliação dos profissionais da área da saúde é que a legislação é ilegal. ''A portaria que regulamenta a doação de sangue diz claramente que ela tem que ser voluntária, anônima, altruísta e não remunerada nem direta nem indiretamente'', diz Suzana.
Tanto a concessão de meia-entrada quanto a isença em taxas configuram remuneração indireta, opina Balbanzi. ''A segurança da coleta do sangue depende muito da sinceridade do doador ao responder os questionários'', conta diretor médico do Hemobanco, Giorgio Balbanzi.
Para aumentar o número de doadores, os bancos de sangue contam apenas com a boa vontade e disposição dos voluntários. ''As pessoas precisam lembrar que um dia também podem precisar desse recurso'', destaca Suzana. Mas se a pessoa precisar de outros incentivos é sempre bom lembrar que quem doa sangue tem o direito, garantido na Consolidação das Leis do Trabalho, de tirar o dia da doação de folga.

mockup