Leila, 14 anos, caminha por uma estrada tortuosa
Paulo Ubiratan
De Londrina
Leila, 14 anos, chorou muito, se revoltou e desapareceu ao saber que havia sido despedida do emprego que durou menos de uma semana. A menina faz parte do exército de adolescentes sem perspectiva nenhuma, que estuda e não trabalha, apesar de diariamente passar fome pela situação de extrema pobreza da família.
Ela tinha a intenção de ajudar a mãe viúva, que trabalha como doméstica, pois tem três irmãos menores. O mais velho está com apenas 10 anos e, informalmente, procura ajudar a mãe cuidando de carros no centro da cidade.
O desaparecimento de Leila, como não podia deixar de ser, resultou em desespero para a sua mãe. Faz dias que a menina está fora de casa. Ela saiu de casa e disse que iria se prostituir, já que estava proibida de trabalhar honestamente, contou a mãe, nervosa e revoltada.
Leila desapareceu por causa do desespero de não possuir muitas opções para encarar a vida e ainda ser subjugada a leis hipócritas que a sociedade impõe.
O desaparecimento da menor londrinense foi levada ao conhecimento da promotora da Vara da Infância e da Juventude, Édina Maria Silva de Paula, que se juntou à revolta e à indignação da mãe da menina, mas pouca coisa pode fazer.
A proibição da menor trabalhar fundamenta-se na emenda constitucional número 20, que alterou o artigo 70 (inciso 33), que permitia o trabalho do adolescente a partir de 14 anos de idade.
Agora, somente menores com idade acima de 16 anos podem trabalhar. A alteração da lei foi feita no ano passado e é de autoria do senador José Eduardo, do Partido dos Trabalhadores (PT) de Minas Gerais.
O principal motivo alegado para a modificação: fundamentou-se que lugar de menor é na escola. Além do mais, o menor estaria contribuindo para tirar emprego de um pai de família, em situação muito mais necessitada.
A mãe de Leila não dorme mais e todas as noites sai pelas ruas com a esperança de encontrar a filha. Entre tantas caminhadas noturnas ela percorre a Avenida Dez de Dezembro, onde meninas se prostituem.
Mesmo com uma enorme vontade de encontrar a filha, a mãe pede a Deus para não se deparar com ela, algum momento destes, se prostituindo. Seria o maior castigo de minha vida. Seria como uma faca me ferindo o coração, desabafa a mulher.
Os irmãos de Leila afirmam que todos os dias rezam por ela. Peço aos anjinhos que cuidem de minha irmãzinha. Ela está nos fazendo chorar todos os dias e a gente quer a sua volta. Mamãe prometeu não castigá-la por ter fugido, afirmou o irmão Frederico.
Recentemente, um envelope apareceu misteriosamente na casa da família. Dentro estavam R$ 250,00 em dinheiro e um bilhete: Mãe, desculpe mãe. As coisas não são como a gente quer. Este dinheiro é para ajudar você a segurar a barra da casa com as crianças. Não pergunte se estou certa. Por enquanto é somente isto que tenho para te dar com muito amor em você, no Derico, no Tico e Ninha, meus irmãos. Beijos da Leila.
Infelizmente...





