Lei sobre transplante gera expectativa
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terça-feira, 21 de janeiro de 1997
Lucília Okamura 
Arquivo Folha/Warren NabucoEsperançaCerca de 400 renais crônicos aguardam transplante em Londrina. No ano passado, número de cirurgias caiu pela metade
A classe médica está na expectativa sobre a posição a ser tomada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso com relação ao projeto de lei que torna todos os brasileiros automaticamente doadores de órgãos. Depois de ser aprovado pela Senado na semana passada, o projeto está nas mãos do presidente para ser sancionado ou vetado. Apesar de o projeto dividir opiniões quanto à sua eficácia, existe um consenso de que a discussão e polêmica em torno do assunto ajuda a conscientizar a população sobre o problema da falta de doadores.
De acordo com o projeto, os brasileiros se tornarão doadores compulsórios. Aqueles que não quiserem doar seus órgãos após a morte terão de procurar departamentos de identificação civil ou de trânsito para que seja gravada a expressão não-doador na carteira de identidade ou de motorista.
O presidente da Associação Médica de Londrina (AML), Álvaro Jabur, diz ter esperanças de que o projeto seja sancionado. Ele lembra que o assunto foi amplamente analisado por vários órgãos, entre eles o Conselho Nacional de Saúde e o Conselho Federal de Medicina.
Na opinião do presidente da AML, o projeto é benéfico principalmente porque irá desburocratizar uma etapa do processo de doação, a de pedir autorização à família do doador. A solicitação do órgão pega a família em um momento muito difícil e de perda. Com a lei, o acesso e a consulta à família ficarão mais fáceis, observa. Independente da lei, ele afirma que os médicos continuarão pedindo autorização à família, já que isso é importante do ponto de vista ético.
Em Londrina,
caiu número de
transplantes renais.
Faltam doadores
O urologista Lauro Brandina acredita que o grande mérito do projeto é a discussão que se criou em torno do assunto. É uma forma de conscientizar mais a população de que o problema existe, ressalta.
Do ponto de vista prático, o urologista não acredita que o projeto trará grandes resultados. Ele ressalta que as famílias continuarão sendo consultadas sobre a possibilidade da doação e, diante da recusa, os médicos não irão aproveitar os órgãos. Temos que respeitar a convicção cultural e até religiosa da família, afirma.
Lauro Brandina ressalta que existem outros fatores que incidem mais diretamente no aumento da doação de órgãos: É preciso uma atitude mais firme dos órgãos governamentais, por exemplo, aumentando o número de centros para transplantes, para retirada de órgãos e de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) capacitados.
Fundamental também, na opinião do urologista, é a conscientização dos médicos quanto à importância da notificação de presumíveis doadores. Ele explica que existe uma lei que obriga os médicos a notificarem, mas ela não é cumprida. Brandina relata que nos Estados Unidos, 30% dos doadores renais utilizáveis não são empregados por falta de notificação, enquanto que no Brasil o índice sobe para 70 a 80%. Existem doadores em número suficiente, desde que aproveitados.
Brandina fez parte da equipe que realizou o primeiro transplante no Brasil, ocorrido em 1965, no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ele foi o responsável também pelo primeiro transplante no Paraná, realizado em Londrina, no dia 10 de junho de 1973. O urologista é chefe da equipe cirúrgica de transplantes renais dos hospitais Evangélico e Universitário. Transplantes semelhantes são realizados também na Santa Casa.
Em Londrina existem cerca de 400 pacientes na fila de espera de um transplante renal, segundo Brandina. A equipe que ele coordena era responsável, nos últimos anos, por 60 a 70 transplantes anuais. Mas nos dois últimos anos, este número caiu por falta de doadores cadáveres. O urologista acredita que no ano passado foram realizadas apenas 35 transplantes.


