A lei do transplante presumido, que completa um ano em janeiro, está apresentando resultados positivos junto à população. O número de notificações de potenciais doadores vem crescendo em hospitais. Mas isso não significou aumento de transplantes e de doações, por causa de falhas entre a retirada de órgãos e o transplante. De acordo com a coordenadora da Central de Transplante do Paraná, Cristina Von Gehlen, em 1996, a central registrou 302 notificações e, no ano seguinte, 255. Neste ano, até o mês de novembro, eram 461.
O crescimento nas notificações aconteceram entre os falecimentos provocados por paradas cardio-respiratórias, que permitem apenas a retirada de tecidos para transplantes. Até o mês passado, a central computou 211 notificações com esse quadro, contra 25, em 1997, e 47, em 1996. ‘‘As famílias estão forçando os médicos a comunicar a morte e a possibilidade de realizar transplantes’’, afirmou Cristina.
Ela disse que a rejeição à doação no Estado não é alta, ficando próxima de países como a Espanha, Bélgica e Áustria, onde existem campanhas de doações presumidas há alguns anos. Nos hospitais estaduais, de cada cem pacientes com morte encefálica (aquela que possibilita a retirada da maioria dos órgãos, porque houve interrupção das atividades cerebrais) apenas a família de 35% deles recusam a doação. Na Aústria, este número é de 32%.
Apesar dessas condições positivas, o número de doações de pacientes por morte encefálica se manteve estável, devendo fechar este ano em mais de 130 - patamar semelhante ao de dois anos atrás. Apesar das doações serem baixas, Cristina aponta o mau aproveitamento dos órgãos retirados como a falha do processo. Hoje, 30 de cada 100 órgãos chegam a cirurgia. No Rio Grande do Sul, este índice é de 90%.
A coordenadora da Central de Transplante avalia que o problema é cultural. ‘‘O médico e o intensivista (o profissional que identifica o potencial doador), que avalia o problema, têm os mesmos preconceitos de parte da população no enfrentamento do óbito’’, disse. Ela afirma que o médico deixa para depois o cuidado com o paciente morto. ‘‘Depois que realizou todas as atividades do dia, ele se preocupa com o paciente que morreu na UTI’’, comenta. Ela comprova esta afirmação ao informar que na Central de Transplantes os comunicados de morte encefálica se concentram entre às 17 e 18 horas.
Para reverter essa demora na comunicação, que inutiliza o uso dos órgãos retirados, a central vem trabalhando com os médicos e intensivistas, motivando a agir rapidamente com o doador. ‘‘A morte encefálica é como o gol, ela acontece quando ultrapassa o travessão. É nesse momento que os hospitais devem comunicar a central, não quando a bola toca na rede e está quase no chão’’, comparou.

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