Lei do silêncio fala mais alto
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de outubro de 1997
Curitiba 
Albari RosaVargas, vizinho da favela: Nem mesmo os taxistas vêm até aquiA política da boa vizinhança com os traficantes tem funcionado como única garantia de sobrevivência para os comerciantes e moradores do Parolin. A prática contempla, além do silêncio sobre a ação das gangues, a conivência com o consumo de cola de sapateiro pelas crianças, a contratação de amigos dos moradores da favela para fazer a segurança das empresas da região e a aceitação explícita do poder das gangues.
Se alguém aqui brigar com os bandidos, recebe represália na hora, diz um dos comerciantes. Há três semanas, um empresário que ousou impedir que sua loja fosse assaltada, teve seu depósito de calçados completamente queimado. Mesmo assim, os empresários vizinhos à loja evitam responsabilizar diretamente as gangues que atuam no bairro.
O silêncio e o olhar desconfiado são características comuns a todos os moradores da favela, onde as pessoas se dividem entre as classes dos trabalhadores e dos bandidos. No dia-a-dia, uma parece ameaçar a outra. Os trabalhadores temem falar demais; os bandidos temem ser delatados.
A convivência com o alto índice de criminalidade tem afastado até mesmo os moradores mais antigos. Quero vender minha casa e criar minhas filhas com tranquilidade, diz o desempregado Pedro Pinheiro da Silva, que mora numa das baixadas da favela há 12 anos. Com três filhas adolescentes, Silva diz que as noites no morro são interrompidas por tiros, gritaria e brigas entre os moradores. Aqui é impossível viver em paz, afirma.
O capitão da reserva do Exército Albury Vargas já precisou usar várias vezes seu revólver 38 para afastar assaltantes que tentaram invadir sua casa. Vargas, que mora há 20 anos numa das ruas que faz divisa com a favela, reclama que nenhuma imobiliária aceita fazer negócios na região. Nem mesmo os taxistas vêm até aqui, diz.
O capitão comenta que já perdeu a conta de quantas vezes viu pessoas serem baleadas na frente da sua casa, a maioria vítimas de assaltos e desentendimentos com outros moradores. Quase todos os meus vizinhos já foram embora com medo da violência, diz. (C.P.)


