Eles não são mais bebês, já têm seis e sete anos. E são de ascendência negra. A menina, a exemplo do irmão, não tem olhos claros. Mas, igualmente a outras 80 mil crianças em todo o Brasil, precisam urgentemente de uma família. Dos 48 moradores entre zero e 18 anos de uma casa abrigo em Londrina, estas são as duas únicas crianças em condições de ser adotadas. O agravante é que, por serem irmãos, não podem ser separados, de acordo com a lei, o que dificulta ainda mais a adoção, já que a maioria dos casais dá preferência a apenas uma criança.
Os irmãos foram tirados da casa da família ainda pequenos. O mais velho com um pouco mais de um ano e a menina ainda bebê, com apenas três meses. O motivo é que a mãe, que sofre de problemas mentais, não tinha discernimento para criar os filhos e, pela própria condição, negligenciava nos cuidados com as crianças. Mas há apenas um ano as crianças tiveram o processo de liberação para adoção concretizado pela Justiça. Por enquanto, nenhum casal se interessou pelas crianças.
A realidade cruel dos dois irmãos é a mesma de tantas outras crianças espalhadas pelos abrigos de Londrina. Em outra casa lar, apenas duas estão aptas a ser adotadas. As demais continuam nos lares, enfrentando a burocracia do processo de adoção, que dura em média quatro anos. A demora faz com que elas cresçam dentro desses lares e ''passem da idade'' de ser adotadas. ''É uma situação difícil porque a maioria dos casais quer adotar bebês e não crianças maiores'', afirma a assistente social Andréa Mansano Ramos, que atende diretamente crianças nessas situações.
As expectativas de mudanças se concentram na votação de um projeto que cria a Lei Nacional de Adoção. A votação deve acontecer neste mês, graças à pressão que vem sendo feita pela Frente Parlamentar de Adoção, que pretende diminuir o tempo de permanência dessas crianças nos lares. O processo agiliza a perda do poder familiar, que retira legalmente crianças da guarda dos pais naturais e é o primeiro passo para a adoção. Já o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) concluirá a implementação do primeiro cadastro nacional de crianças prontas para adoção e de adultos interessados em adotar. Atualmente, a maioria dos cadastros está restrita aos municípios ou, em poucos casos, a um banco de dados estadual.
Entre outras novidades da Lei Nacional de Adoção está a licença-paternidade, de 60 dias, para homens solteiros ou viúvos que adotarem uma criança. O projeto permite ainda adoção de maiores de 18 anos, hoje não prevista em lei. E, no caso da perda do poder familiar, limita o processo a no máximo um ano de duração.
O autor do projeto, deputado João Matos (PMDB-SC), afirma que a lei deixa claro que a adoção é um ''direito inalienável'' da criança. Antes, era vista apenas como solução para o casal que não podia ter filhos. A expectativa com a nova lei é que aos poucos a mentalidade de querer bebê, menina, branca e de olhos claros, seja deixada de lado e permita aumentar a quantidade e a qualidade das adoções.
A promotora da Vara da Infância e Juventude de Londrina, Édina Maria de Paula, considera que os responsáveis pelo projeto têm um ponto de vista doutrinário, por não estarem trabalhando na prática, mas concorda com a agilização no processo de adoção. ''As crianças têm direito a uma família o mais rápido possível''.
Lidando diretamente com crianças nesta situação, a promotora afirma que o ideal seria resgatar o vínculo com a família, mas que em muitos casos conseguir isso é difícil. ''O objetivo principal é fazer com que a criança volte para a família, mas é muito difícil resgatar esse vínculo. Sofre a família, sofre a criança durante esse processo.''
A promotora é radical quando a questão é a demora para finalizar um processo de adoção. ''Não posso perder tempo. Tenho que resolver a situação dessa criança''. A favor da proposta conhecida como ''Parto Anônimo'', quando a mãe não quer o filho e a criança fica protegida para ser encaminhada à adoção logo após o nascimento, a promotora salienta que a decisão rápida da Justiça deve melhorar a situação das milhares de crianças abandonadas em todo o Brasil.
Em muitos casos, as mães deixam as crianças nos próprios hospitais para adoção. Em outros momentos, deixam os filhos com os avós. ''Não querem cuidar, mas também não doam os filhos. Esse vínculo é difícil de desfazer'', explica.(Com Agência Estado)

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