Lei antipichação não inibe vandalismo
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quarta-feira, 17 de agosto de 2016
Simoni Saris<br>Reportagem Local 


Nove meses após a sanção da Política Municipal Antipichação em Londrina, prédios públicos e imóveis particulares continuam sendo alvo de pichadores. A dificuldade de identificação dos autores do ato de vandalismo é apontada pelo poder público como o principal entrave da lei, que prevê multa aos pichadores ou responsáveis. O secretário municipal de Defesa Social, coronel Rubens Guimarães de Souza, também cita a falta de envolvimento da sociedade como um fator que contribuiu para a ineficácia da medida.
"A adesão da população não aconteceu, as denúncias não aumentaram, as pessoas não se envolveram como se esperava. A lei, por si só, não faz diferença", disse. "Convocamos taxistas, mototaxistas e contávamos com as câmeras de empresas. Todo esse pessoal foi convocado, mas o combate depende de um conjunto de ações. Não adianta achar que a Guarda Municipal e a Polícia Militar vão resolver sozinhas porque não vão. O município precisa do apoio da sociedade", cobrou o secretário.
A Secretaria Municipal de Defesa Social não tem um balanço que aponte os resultados da lei antipichação. O secretário ressaltou, no entanto, que nos últimos dois anos, houve redução de mais de 80% nas pichações nos locais monitorados por câmeras. "Pegamos várias situações. Foram quase 30 pessoas detidas. Diminuiu a pichação." A Guarda Municipal conta com 68 câmeras giratórias, que captam imagens em 360 graus, e outras 250 fixas, sendo a maioria instalada em prédios públicos.
Apesar de o secretário afirmar que as pichações reduziram, o que se vê pela cidade ainda é um grande número de estabelecimentos comerciais que tiveram suas fachadas pichadas ou muros residenciais cobertos pelos símbolos deixados pelos grupos de pichadores.
Na Praça Pedro dalCol, no Jardim Higienópolis (região central), é difícil encontrar uma residência ou estabelecimento comercial que não teve o muro pichado. Na esquina com a Rua Humaitá, a fachada do imóvel vazio onde antes funcionava uma revenda de veículos foi coberta por rabiscos. Ao lado, o proprietário de um centro de estética automotiva, Rodrigo Sanches, refez a pintura do muro três vezes, mas acabou desistindo. "Depois que colocamos câmeras, deu uma diminuída, mas ainda assim já picharam. Por enquanto, não vou pintar de novo."
No mesmo local, uma clínica de saúde só passou a ter um pouco mais de sossego depois de instalar cerca elétrica. Antes disso, os pichadores não davam trégua. "A gente pintava a fachada, não dava dois dias e eles voltavam a pichar. Tivemos um gasto considerável para instalar câmeras e cerca elétrica", comentou a coordenadora, Rose Figueiredo.
Os pichadores não pouparam nem a caminhonete que fica constantemente estacionada em frente a um prédio residencial. "A polícia vem quando a gente chama, mas só de vez em quando. Infelizmente, aqui não tem jeito", lamentou o aposentado Nilton Cazarin.
Perto dali, os pichadores foram ainda mais ousados e deixaram até um recado para o proprietário de uma floricultura que insiste em apagar os rabiscos. Foi a deixa para que Ortis Martins de Oliveira travasse no muro da fachada de sua loja um diálogo com os pichadores. "Escrevi embaixo que os pais deles deveriam ter muito orgulho deles. Eles responderam que sim e picharam toda a fachada de novo. Passo tinta por cima para apagar o que eles escrevem, mas já fiz isso quatro vezes. É inútil. Isso é uma safadeza", afirmou.
Na Rua Sergipe (centro), as portas de aço dos estabelecimentos comerciais também costumam ser alvo dos pichadores. "O proprietário já mandou pintar a porta várias vezes, mas o pessoal vem e picha de novo. É jogar dinheiro no lixo", disse a gerente de uma loja de bijuterias Rose Macedo. "A gente pinta uma vez, eles vêm e picham de novo. Aqui na esquina tem uma câmera da prefeitura, mas é muita burocracia para conseguir pegar as imagens", disse a gerente de uma loja de calçados, Simone Glemes.
Para alguns, no entanto, o ato de vandalismo acabam sendo uma boa fonte de renda que pode reforçar o orçamento. O pintor Jalmiro Barros disse que chega a faturar entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil por mês para limpar as marcas deixadas pelos pichadores. Nesta semana, ele trabalhava em um bar na Rua Benjamin Constant (centro). "Dá trabalho porque não é só passar a tinta por cima. Tem que passar um fundo antes, senão não esconde os rabiscos", explicou. "Chego a fazer cinco trabalhos desse tipo por mês."


