Legista fica
surpreso com fotos
de ‘suicidas’
Arquivo FolhaMédico-chefe do IML de Londrina, Antonio Carlos de QueirozAs fotos de índios que supostamente cometeram suicídio estarreceram o legista Antonio Carlos de Queiroz, médico aposentado pela Funai e chefe do Instituto Médico-Legal (IML) de Londrina. ‘‘Qualquer médico legista, em qualquer lugar do mundo, colocaria sob suspeita estes casos’’, afirma.
Segundo ele, o enforcamento, por suicídio ou provocado, é amplamente relatado nos tratados de medicina legal. ‘‘Os primeiros relatos remontam há séculos, desde o início da medicina’’, historia. O enforcamento está tecnicamente enquadrado numa categoria ampla, designada nos tratados como morte por asfixia mecânica. ‘‘Mas, nos casos de enforcamento, a morte sempre é agônica. Nunca é serena’’, lembra.
Todo enforcado passa, antes de morrer, por quatro fases ‘‘violentas e inevitáveis’’, segundo Queiroz. A primeira, genéricamente chamada de cerebral, pode durar até 1,5 minuto e provoca vertigem, ofuscamento da visão, angústia e, por fim, perda de consciência. A segunda, de excitação cortical e medular, dura de um a dois minutos e provoca convulsões violentas, aumento do peristaltismo e perda de reflexo.
O indivíduo agonizante evacua e urina nas calças, constituindo a terceira fase, de até dois minutos, quando ocorre a parada respiratória. Depois, com a constrição do nervo vago, ocorre o chamado choque vagal e parada cardíaca. Quando o enforcamento é violento, as quatro fases podem ocorrer instântaneamente. É o único caso em que se admite o chamado enforcamento incompleto.
Com base em fotos conseguidas pela Folha - as fotos não serão publicadas por apresentarem cenas chocantes - o legista diz que os indivíduos teriam reagido involuntariamente, assim que chegassem na segunda fase do processo agônico. ‘‘Todos estão apoiados no chão. E aí já não se trata de desejo de morrer ou não. Com a perda da consciência o corpo teria reagido involutariamente, buscando apoio para sair da asfixia’’, explica.
Por isso, só se admite os chamados enforcamentos incompletos quando há um golpe violento, que provoca a morte quase instântanea, ‘‘como se jogar, de joelhos, de uma cadeira ou de um galho de árvore com corda amarrada ao pescoço’’, diz. Em casos de enforcamento violento com morte instantânea, há um conjunto de sinais que Queiroz não conseguiu identificar em nenhuma das fotos.
‘‘A morte por enforcamento é uma morte violenta, sempre. E os sinais desta violência ficam evidentes na faces do cadáver’’, diz. Os mais visíveis são a protrusão da língua e dos olhos. É praticamente impossível o indivíduo permanecer com os olhos fechados após o enforcamento. Além disso, a congestão do sangue escurece de forma muito evidente toda a pele do rosto, principalmente na região das têmporas e da testa.
De acordo com Queiroz, a ausência de um deste elementos não é suficiente para descaracterizar o enforcamento. Mas a ausência de todos eles, como ocorre nas fotografias analisadas, coloca sob suspeita a tese do suicídio. ‘‘A face do enforcado se torna vultuosa, congesta e cianótica. Em hipótese nenhuma este tipo de morte é serena’’.
Há também inúmeros outros sinais que levam o especialista a certificar-se da morte por enforcamento. Alguns destes sinais, como os sulcos deixados no pescoço, permitem que se identifique imediatamente se a morte ocorreu antes ou depois do suposto enforcamento. ‘‘Há uma sequência de lesões nos vasos internos, nos pulmões, na estrutura do pescoço, na coluna cervical, nos nervos e nos tecidos, através dos quais o especialista pode chegar às minúcias de como o enforcamento ocorreu, se é que realmente ocorreu’’, diz. (P.S.M.)

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