Lavradores se sentem ameaçados por sem-terra
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segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Fernanda Borges<br> Reportagem Local 
Trabalhadores da Usina Central do Paraná (UCP), com sede em Porecatu, que viviam há mais de dez anos na colônia da Fazenda Itaverá, em Alvorada do Sul, estão há mais de uma semana vivendo de forma precária em casas alugadas e até mesmo em alojamentos cedidos pela prefeitura depois de deixarem a fazenda. Os lavradores afirmam terem sido ameaçados por sem-terra, liderados pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que ocuparam a fazenda no último dia 6. Uma grande quantidade de cana-de-açúcar plantada na fazenda foi queimada. Uma mulher morreu depois de passar mal ao se sentir ameaçada. A área pertence ao Grupo Atalla, que comanda a Usina Central.
O banheiro do ginásio de esportes da cidade se transformou no novo ''lar'' da família de Zelina da Silva Coradina, 46 anos, que vivia ma Fazenda Itaverá há 16. O marido e mais três filhos estão ''amontoados'' em dois cômodos, onde estão instaladas as duchas de banho para utilização de frequentadores do ginásio. ''Na hora de dormir temos de colocar os colchões no chão e conseguir um espaço para cada um. É muito triste porque a gente teve que sair de repente sem tempo para achar um lugar para morar'', lamenta a mulher.
Zelina chegou a ficar uma semana na Fazenda Itaverá com a presença dos sem-terra. Segundo ela, o grupo chegou na madrugada do dia 6, munidos de armas, amedrontando todas as famílias. ''Eles ficavam o tempo todo pedindo as coisas pra gente, vasilhas, água, comida e olhavam com cara feia se a gente negasse qualquer coisa. O tempo todo ficavam mostrando as armas e passando pela gente como forma de ameaça. Acho que gente boa não precisa andar armada, né?'', questionou a mulher, que sofre de paralisia numa das pernas e não pode ficar se locomovendo pelas escadas do ginásio.
Em outro cômodo acima do banheiro ocupado pela família de Zelina, está alojado Valdinei Ferreira da Cruz, 30, sua mulher e os três filhos. O cortador de cana morava na fazenda há cinco anos com a mulher e os três filhos, que hoje estão dividindo o pouco espaço que conseguiram. ''Nossa casa na fazenda tinha cinco cômodos, agora estamos aqui, todos apertados. Tivemos que puxar a água do ginásio pra cá e temos de usar o banheiro usado pelo pessoal que joga bola'', comentou Cruz.
A mulher do lavrador, Rosimeire da Silva, 29, disse que temia a ação dos sem-terra e não conseguia se sentir à vontade em deixar as crianças em casa com eles armados por perto. Eles falavam que a gente podia ficar com eles lá e que ganharíamos cinco alqueires de terra cada, mas quem não quisesse ficar podia que ir embora'', disse.
A reportagem da FOLHA esteve na Fazenda Itaverá anteontem à tarde e encontrou os sem-terra munidos de pedaços de paus e foices logo na entrada da área, que eles estimam ter cerca de mil alqueires. Apesar de não permitirem o acesso da reportagem ao interior da fazenda, conversaram com a reportagem e negaram terem sido os responsáveis pela queima da cana. ''Isso foi feito por alguém da usina para nos prejudicar'', comentou um dos sem-terra.


