Cambé O adolescente Cristiano da Silva, 17 anos, assassinado quarta-feira dentro de uma cela da delegacia de Cambé (13 km a oeste de Londrina), aguardava autorização do Instituto de Ação Social do Paraná (Iasp) para ser transferido para uma unidade de internamento do Estado. Envolvido em uma tentativa de homicídio, em março deste ano, o menor, conhecido como ''Bunda'', foi morto por asfixia mecânica dentro da carceragem, onde convivia com mais sete adolescentes infratores. ''Esta informação é extra-oficial, mas já recebi a confirmação que ele já tinha sido sentenciado pela Justiça e aguardava uma vaga no Iasp desde o final de julho ou começo de agosto'', relatou ontem o delegado de Cambé, Valdir Abrahão.
O resultado da necrópsia feita pelo Instituto Médico-Legal (IML) de Londrina confirmou que a morte foi provocada por asfixia ou estrangulamento, provavelmente efetuada com as mãos ou alguma tira de pano. Na cela, ao lado do corpo, um investigador encontrou um cordão feito com pedaços de pano e dois fios de energia. O IML também detectou marcas de tortura. Entre elas, lesões nas mãos provocadas por choque elétrico e queimaduras. ''Nossa suspeita é que os cabos que estavam na cela tenha sido usados para práticas de tortura'', disse o delegado. Um adolescente de 16 anos, que participou do latrocínio do empresário Paulo Sinsker, de Apucarana, em julho deste ano, voltou a reivindicar a autoria da morte de Cristiano. Segundo o delegado, o menor relatou que teria torturado a vítima com choques e com pingos de plástico derretido. ''Eles mantinham um isqueiro dentro da cela que foi utilizado para queimar alguns sacos plásticos e acender os cigarros'', explicou o delegado.
Segundo Abrahão, o exame do IML, cuja totalidade dos resultados ainda não está finalizada, vai dissipar ainda as dúvidas sobre um provável abuso sexual contra a vítima. ''Temos suspeitas sobre isso, mas temos que aguardar a segunda parte com os resultados finais do IML'', disse. Os outros seis adolescentes apreendidos na carceragem negaram participação no espisódio. ''Eles disseram que o menor que confesso fez tudo sozinho'', relatou Abrahão. ''Mas estamos duvidando e investigando a hipótese de participação dos outros'', prosseguiu.
Procurado pela Folha, o presidente do Iasp, José Wilson de Souza, disse que não tinha conhecimento sobre a morte do menor. Ele afirmou que iria se ''inteirar'' do assunto e que concederia entrevista depois. O presidente, no entanto, não atendeu as ligações feitas para o celular dele no final da tarde. A Unidade Social de Integração de Londrina (Usoil), também conhecida como educandário, seria o destino mais provável de Cristiano. O complexo, no entanto, enfrenta graves problemas de infra-estrutura, o que impossibilita a reclusão de novos infratores.
O coordenador do núcleo da Comissão de Direitos Humanos (CDH) de Cambé, Josinaldo da Silva Veiga, disse que vai acompanhar o caso de perto. ''Achamos estranho quando ficamos sabendo da morte pelo jornal. Se realmente for comprovada práticas de tortura, vamos enviar um ofício ao Ministério Público e à Corregedoria da Polícia para responsabilizar quem se omitiu no caso'', afirmou. Ele disse ainda que o CDH se colocará à disposição da família do adolescente.

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