Lar conquista filhas para vida inteira
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sexta-feira, 09 de maio de 1997
Célia Baroni 
Esse é meu pai, diz Ariana de Souza Pantaleão, de 14 anos, uma das 23 crianças e adolescentes que moram no lar Marília Barbosa, em Cambé. Ela chegou ao lar com um ano de idade e a manifestação de afeto é dirigida ao diretor do Lar, Hugo Gonçalves, 84 anos de idade. Ele está à frente da instituição desde a sua criação, em março de 1953, há 44 anos. Como a maioria das mais de 300 meninas que passaram pelo lar ao longo de sua existência, Ariana foi deixada na instituição pela mãe, que não tinha meios para criá-la.
Só penso em sair daqui depois de terminar os estudos e, mesmo assim se precisar mudar de cidade a trabalho, garante Ariana. Ela não é exceção. Asfilhas de Hugo Gonçalves geralmente só deixam de ficar debaixo de sua asa devidamente encaminhadas na vida profissional. Para realiza 2esse trabalho, ele conta com a ajuda da esposa, Dulce.
Madalena Virgílio de Souza, 14 anos, ainda não decidiu qual profissão seguir. Pensou em ser professora, mas a2experiência de ajudar na creche do lar, durante os horários alternativos ao da escola, fez que ela desistisse da idéia. Certo mesmo é que vai continuar na instituição até ficar adulta. Estou feliz aqui.
A escolha da profissão fica a critério de cada uma delas, mas a2conclusão do nível superior é incentivada por Gonçalves. Entre as meninas que viveram no lar há advogadas, assistentes sociais, enfermeiras, professoras, etc. Não são raros, também, os casos de moças que, mesmo adultas e trabalhando, só deixaram o lar depois de casadas.
O primeiro casamento foi entre um dos filhos de Hugo Gonçalves e a primeira menina que entrou no lar. Maria José Pimenta chegou ao lar quando tinha 4 anos. Mas o namoro com o filho de Gonçalves só começou quando ela estava com 17 anos e, mesmo assim, sob a guarda severa do pai. Só permiti o namoro quando percebi que o sentimento era sério. Hoje brinco com Maria José dizendo que ela é a única mulher que não pode falar mal da sogra, comenta sorrindo. Maria de Fátima deu a ele oito netos.
Fátima Domiciano Andrade Furlaneto, 42 anos, casada, é funcionária da Secretaria de Saúde de Cambé. Deixada no lar aos seis anos de idade, juntamente com sua irmã de três anos, conta que não precisou de muito tempo para se adaptar à nova vida. O carinho do paizinho e da mãezinha e a companhia de outras crianças ameniza am meu sofrimento inicial. Aos poucos me senti em casa. Aos 20 anos ela se casou e fez questão que a cerimônia fosse no lar. Hoje ela tem um casal de filhos já adultos.
A agente social Conceição da Silva recorda com carinho os anos que viveu no lar, e diz que nunca passa muitos dias sem visitar o paizinho e a mãezinha. Ela foi uma das que mais demorou para sair da entidade: casou com 31 anos. Depois de terminados os estudos, ela continuou morando no lar e trabalhando.
Naquela época não havia limite de idade para permanecer no lar, e eu me sentia em casa. Estava bem e não tinha porque ir para outro lugar, conta. Conceição recorda ainda a dificuldade enfrentada para se habituar a viver apenas com o marido. Na época em que estava na entidade, havia 75 meninas. Sempre tinha alguém para conversar e a agitação era grande; a mesma de uma grande família.


