Lapa resgata dança típica dos negros
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de junho de 1997
Vânia Casado 
O céu azul como pano de fundo e o som dos tambores atraíram a população para a festa de aniversário da Lapa, a 64 quilômetros de Curitiba. O ponto alto das comemorações foi a dança da Congada, parte do folclore típico do município e que há 17 anos não se manifestava na cidade. O resgate da Congada foi promovido pela prefeitura municipal, que recorreu à dança popular para comemorar os 228 anos do município.
A cidade ficou sem ver a Congada por tanto tempo por falta de apoio e incentivo, resultando na desintegração do grupo que praticava a dança. A Congada é uma manifestação artística de grupos originários do Gongo, Nigéria e Ilhas Açorianas que vieram para o Brasil, instalando-se em regiões do Nordeste e no Paraná, especificamente no município da Lapa onde a comunidade negra representa entre 20% e 30% da população.
Por iniciativa do prefeito Miguel Batista, a Congada foi resgatada. Os integrantes do grupo atual conhecem a história e o texto da dança, já que a maioria é parente (filhos e sobrinhos) de integrantes do grupo antigo. O trabalho de resgate da cultura negra foi feito pela secretária de Educação, Cultura e Esporte, Valentina Piovesan Batista, que destaca a necessidade de valorização da identidade cultural da Lapa, através da Congada.
Valentina Batista conta que teve muita dificuldade para reunir os moradores que conheciam a dança, justamente pela falta de entrosamento entre eles. Antes de juntá-los foi necessário um trabalho da secretaria para convencê-los a formarem um novo grupo. Ela visitou cada casa convidando as famílias a reviverem a Congada.
A cultura lapeana não pode se desvincular dessa manifestação cultural que valoriza o negro como raça e o preto como cor, enfatiza a secretária. Segundo Valentina, toda a comunidade da cidade se empenhou no resgate da Congada. As costureiras contribuíram com o vestuário, alegre e colorido; os sapateiros na confecção de sapatos especiais, combinando com a roupa; os artesãos ajudaram na fabricação dos instrumentos utilizados na dança, como lanças, espadas e tambores.
O texto da Congada relata, no primeiro ato, o confronto entre dois reinados que disputam o poder com lanças e espadas. Os adultos são os representantes desse ato. No segundo ato, as crianças oriundas dos dois grupos entram em cena defendendo a paz. Elas pedem a paz aos dois reis, sempre com devoção a São Benedito, que é o santo negro.
A interferência das crianças pedindo a paz é a grande mensagem dessa manifestação folclórica, oriunda dos reinados africanos, explicou Valentina Batista.
A festa atraiu a atenção da população lapeana, que compareceu e prestigiou o evento. A dona-de-casa Doriléia da Silva, 29 anos, assistiu à dança com seus dois filhos menores. Para ela, a Congada deve voltar a fazer parte das festividades da cidade, pela beleza do ritmo e pela alegria que representa.
Outro que defente o resgate da Congada como cultura da cidade é Luiz Benedito Alberte, de 49 anos. Ele conta que já apreciava a dança antes, quando as apresentações eram frequentes na cidade, e agora aplaude o retorno da manifestação cultural.


