Érika Pelegrino
De Londrina
Aos 75 anos, Luiz Juliani não tem lembrança de algum período de sua vida em que o zumbido e o vôo das abelhas não estivessem presentes. Elas fazem parte de suas lembranças desde os primeiros anos de infância. A criação de abelhas é uma tradição na família Juliani.
Ainda na Itália, o bisavô e o avô já se dedicavam à apicultura. Mais tarde o pai, José Juliani, um dos primeiros fotógrafos de Londrina, morto há 25 anos, também herdou o gosto pela criação de abelhas. O garoto Luiz Juliani, ainda muito pequeno, lembra-se do pai, lavrador no interior de São Paulo, lidando com colméias.
O trabalho já o encantava. Aos seis anos começou a ajudá-lo. ‘‘A grande atração era a extração do mel, que era utilizado apenas para consumo da família’’, lembra. Em 1933 a família Juliani – pai, mãe e sete filhos – deixa o interior de São Paulo e vem para Londrina.
O pai larga as abelhas para dedicar-se em tempo integral à fotografia, sua grande paixão. Mas o garoto Luiz Juliani, então com nove anos, continua dedicando-se à apicultura. ‘‘Nunca parei de lidar com abelhas. Costumo dizer que é mais fácil deixar a mulher do que largar as abelhas’’, brinca. Diga-se de passagem, Juliani é casado há 50 anos.
Entre todos os filhos – dois já falecidos – apenas Luiz Juliani herdou o gosto pelas abelhas. Depois de adulto, ele entrou também para o ramo da fotografia, trabalhando durante 54 anos com sua máquina como lambe-lambe no centro de Londrina.
A fotografia, porém, não ocupou totalmente Luiz Juliani. Pelo menos não o suficiente para afastá-lo das abelhas. Nas horas de folga, finais de tarde, sábados, domingos, feriados e às vezes até mesmo à noite, podia-se encontrar o fotógrafo em meio de suas colméias.
Tanto que em 1960 encontrou em Londrina uma espécie nativa ainda não conhecida. ‘‘Todas as abelhas que eu encontrava mandava para Curitiba, para o padre Moure, um grande especialista em nomenclatura de abelhas. Ele é quem dizia para mim qual o nome científico delas’’, conta. ‘‘Uma vez mandei uma que ainda não era conhecida e recebeu a denominação de Plebéia () Julianii-Moure’’, complementa.
As abelhas nativas tornaram-se a paixão de Luiz Juliani quando a família veio para Londrina. ‘‘Em São Paulo, meu pai criava abelhas européias, mas quando chegamos a Londrina passamos a criar abelhas nativas’’, conta. A peculiaridade destas abelhas é que elas não têm ferrão, diferente das européias. Luiz Juliani lembra que quando chegou a Londrina existiam pelo menos 16 espécies diferentes de abelhas nativas.
‘‘Naquela época a mata na região era abundante’’, conta. Com a colonização houve muito desmatamento, acabando com parte do habitat natural das abelhas. ‘‘Mais tarde, com a mecanização da lavoura a situação ficou ainda pior, pois não sobravam nem tocos de árvores para as abelhas criarem suas colméias’’, conta. Algumas espécies, muito poucas – Juliani não sabe dizer ao certo quantas nem quais – sobreviveram adaptando-se no meio urbano.
Hoje, segundo ele, encontramos nas cidades e no que restou de mata em Londrina algumas espécies nativas e uma miscigenação de abelhas européias com africanas. Há um mês Juliani parou de trabalhar com fotografia e passou a dedicar-se apenas à criação de abelhas.
No fundo do quintal de sua casa, em meio a pés de mexerica, pitanga, gabiroba, jabuticaba e de diversas flores, entre elas, orquídeas, Luiz Juliani tem mais de 40 colméias de Mandaguari, Mandassaia (espécie extinta em Londrina e que Juliani mandou buscar em Curitiba), Jataí, Jandaíra (espécie do Nordeste que ganhou de um amigo); além de colméias de abelhas européias.
A atenção especial de Luiz Juliani é para a abelha Jataí, que segundo ele tem o mel mais saboroso, além de ser medicinal. Ele chegou a criar um tipo novo de colméia para estas abelhas. São colméias com dois compartimentos: um onde ficam as abelhas e outro onde elas depositam os potes de mel. ‘‘Este tipo de colméia facilita a extração fazendo com que haja maior aproveitamento do mel e menor prejuízo para as abelhas’’, afirma.
Nas colméias tradicionais, como as abelhas ficam no mesmo compartimento dos potes de mel, na hora da extração acaba-se matando muitas abelhas, segundo Luiz Juliani. Para chegar a este modelo, que ele pretende divulgar em artigo para quem quiser desenvolver e comercializar, Luiz Juliani criou outros 30.
Cada uma de suas 16 colméias de Jataí tem um enxame de cinco mil abelhas que produzem anualmente entre um litro e um litro e meio de mel. Este mel Luiz Juliani vende apenas sob encomenda, já o mel das abelhas européias é só chegar e comprar. ‘‘Cobre os custos que tenho com a criação’’, afirma.
Hoje suas incursões nas matas atrás das produtoras de mel não são constantes. Mas de vez em quando Luiz Juliani ainda se embrenha mata adentro – normalmente na região Sul, ‘‘onde ainda resta um pouco de floresta’’ – como quando era garoto, e com um machado abre ‘‘uma janela’’ em ocos de árvores, onde as abelhas se encontram.
De dentro do oco é retirado os favos de cria e os potes de mel que são colocados em uma colméia – uma caixa levada pelo criador de abelhas. Em seguida tampa-se com ramas o oco da árvore obrigando as abelhas a entrar na colméia e leva-se para casa. Parte do conhecimento que adquiriu como criador de abelhas Luiz Juliani está colocando em um livro específico sobre a abelha Jataí. ‘‘Até o primeiro semestre do ano 2000 deverá estar pronto’’, afirma.

CURIOSIDADES
- No Brasil existem cerca de 300 abelhas nativas
- Na colônia – família de abelhas – o trabalho é dividido por idade e começa a ser desenvolvido desde que são recém-nascidas até saírem da colméia para buscar o néctar das flores para a produção de mel
- As abelhas carregam o néctar até as colméias em sua visícula melífera
- O néctar é depositado em ‘‘potes’’ de cera feitos pelas abelhas com o pólen das flores
- Através de um processo de ventilação elas fazem evaporar a água do néctar ficando apenas a parte concentrada – o mel.
- Este mel é consumido pelas abelhas na época do inverno
- As abelhas levam até 15 dias para começarem a voar
- O tempo de vida das abelhas varia de 40 a 60 dias
Fonte: Luiz JulianiO londrinense Luiz Juliani abandona o ofício de 54 anos para se dedicar às abelhas e prepara livro sobre a espécie Jataí
Fotos Dorico da SilvaATRAÇÃOJuliani e as abelhas: ‘‘Costumo dizer que é mais fácil deixar a mulher do que largar as abelhas’’No fundo do quintal da casa do apicultor, dezenas de colméias: criação faz parte tradição familiarEm 1960, o apicultor encontrou em Londrina uma espécie nativa ainda não conhecida. Todas as abelhas que encontrava, ele mandava para Curitiba, para um especialista em nomenclatura de abelhas, que dizia o nome científico delas: ‘‘Uma vez mandei uma que ainda não era conhecida e recebeu a denominação de Plebéia () Julianii-Moure’’

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