Pescadores profissionais de Itambaracá (46 km a leste de Cornélio Procópio) estão acompanhando calados o ‘‘enterro’’ da área de onde, durante anos, tiraram o sustento. Desde a semana passada, as águas do Rio Paranapanema foram represadas para formação dos lagos das Hidrelétricas Canoas 1 e 2, que vão entrar em funcionamento no início do ano que vem. A área a ser inundada, no total, será de 4.851 hectares.
Em maio deste ano, iniciou-se a retirada dos animais. Macacos foram levados para o Parque Estadual São Francisco, em Santa Mariana. Em agosto, intensificou-se o desmatamento e, agora, só restava a retirada das famílias de pescadores que viviam nas margens do rio. Eles reclamam das indenizações. ‘‘Me deram uma casa na cidade, mas do que eu vou me ocupar agora? Eu não sei fazer outra coisa a não ser pescar’’, lamentou o pescador Jair Vieira, 56 anos.
DivulgaçãoFaz 28 anos que Vieira pesca no mesmo local. ‘‘Foi nesse rio que a gente levantou a vida e aqui criei meus filhos’’, disse. Além dele, cerca de 50 famílias de pescadores estão vivendo o mesmo drama. Outros, ainda pior, porque até o momento nada receberam, como é o caso do pescador José Antônio de Oliveira, 41 anos. Conhecido como Zé Pescador, pesca no local desde 1979.
‘‘Não vejo perspectivas para nada. Até agora ninguém me procurou. Desmanchei meu rancho na beira do rio e não faço idéia como vou sustentar minha família de agora para frente’’, reclamou Oliveira. Segundo ele, o represamento do rio acaba com a corredeira, o que diminui em mais de 60% o volume de peixes.
É com os peixes que os pescadores mais se preocupam. Eles pedem a construção de rampas ou escadas para os peixes ‘‘subirem’’ o rio na piracema (de novembro a janeiro). ‘‘Ultimamente, quase todos os peixes que pescamos estão vindo machucados. Eles se batem no cimento da barragem para tentar subir’’, informou Oliveira.
Os pescadores temem que a situação fique semelhante a da Hidrelétrica de Salto Grande, em Cambará (20 km a oeste de Jacarezinho), construída na década de 50. Ali, na época de verão, as comportas são abertas e os peixes, por não conseguir subir, se acumulam num prato cheio para a pesca ilegal. ‘‘As pessoas chegam a retirar peixes em sacos e o trabalho de inspeção triplica’’, explicou o técnico do Instituto Ambiental do Paraná em Jacarezinho, Marcos Antônio Pinto.
O EIA-RIMA (estudo de impacto ambiental) feito na área a ser alagada já foi aprovado pelo Intituo Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Segundo o técnico do Ibama, Alarico Jácomo, responsável pela área, foram feito duas vistorias e, até o momento, a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) e a Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), exploradora das hidrelétricas, têm cumprido as exigências, como controle da capacidade erosiva do solo, revegetação da área e sistema de proteção. ‘‘Até o momento, estão cumprindo todas as normas, por isso liberamos o processo’’, afirmou Jácomo. Segundo ele, o resgate da fauna está sendo acompanhado por técnicos capacitados. ‘‘A Cesp é bastante experiente e cautelosa no assunto’’, acrescentou.
Para os moradores dos municípios sede das usinas, os danos causados pelo alagamento serão irreparáveis. ‘‘O município pode se empenhar, o Estado, a Cesp, o Ibama, quem quiser, mas jamais vão conseguir reflorestar o local e deixa-lo como era antes. Isso aqui já era’’, disse o vice-prefeito de Itambaracá, José Gomes.

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