LADO OBSCURO - Água clandestina
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segunda-feira, 12 de setembro de 2016
Aline Machado Parodi<br>Reportagem Local 

Para garantir água em casa o autônomo José de Oliveira, de 40 anos, fez uma ligação clandestina da rede de abastecimento da Sanepar. Morador do Jardim União da Vitória 6, uma área de invasão na zona sul de Londrina, "gambiarra" foi a única maneira que ele encontrou para ter acesso à água. Oliveira não é único nesta situação. Na rua de terra, apenas três ou quatro casas têm medidor de água. Segundo o Instituto Trata Brasil, áreas irregulares são um entrave à universalização do saneamento básico.
O Instituto Trata Brasil divulgou recentemente o estudo "Saneamento em Áreas Irregulares no Brasil", que mostrou que nas seis maiores cidades do Paraná - Curitiba, Londrina, Foz do Iguaçu, Ponta Grossa, Cascavel e São José dos Pinhais existem 135 mil pessoas residindo em 365 áreas irregulares, que consumiram 8 milhões m³/ano de água em 2014 e geraram cerca de 6,3 milhões m³/ano de esgoto.
Do total de esgoto gerado, estima-se que 3,1 milhões de m³/ano são lançados sem tratamento. Para universalização dos serviços de água e esgotos nas áreas irregulares dessas seis cidades seriam necessárias mais 41 mil ligações de água e esgoto, segundo estimativas do Instituto.
Londrina aparece como a cidade com a situação mais crítica. Em torno de 68 mil pessoas moram em 53 assentamentos irregulares e, segundo dados da Sanepar, em todos há ligações clandestinas de água. Segundo dados repassados pela empresa ao Trata Brasil, em 2014, foram consumidos cerca de 3 milhões de metros cúbicos de água nestas áreas.
"As áreas irregulares são um lado obscuro. Não existem informações oficiais", afirmou Alceu Galvão, coordenador da pesquisa, que é considerada pioneira no país. Segundo ele, para realizar os estudos, foram ouvidos os prestadores de serviços dos municípios.
"Temos de um lado os prestadores de serviço que querem resolver as perdas física da água retirada do sistema sem medição e a financeira. No outro lado temos a população que quer água e utiliza as ligações clandestinas. Ambos querem resolver o problema, mas é uma questão complexa que passa pela regularização fundiária", ressaltou Galvão.
A intenção da pesquisa é fomentar uma discussão sobre o acesso ao saneamento básico. Na opinião de Galvão, não se pode esperar pela regularização fundiária dessas áreas para garantir água de qualidade e tratamento de esgoto. "É um debate importante e que precisa estar na agenda política."
ESGOTO
O estudo apontou que menos da metade da população brasileira está ligada às redes de coleta de esgoto e apenas 40% dos esgotos gerados são tratados, segundo os dados de Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS) - ano base 2014.
No União da Vitória não é diferente. Além de ser um assentamento irregular, a área está sob uma laje que impede a instalação de rede de esgoto. As fossas são construídas com menos de um metro de profundidade. "A fossa tem que ser mais larga porque não dá para cavar muito e tem que economizar água para não encher muito rápido", explicou o pedreiro José Otacílio da Silva, de 64 anos. O também pedreiro Moacir Diniz, 45, contou que já mudou a fossa de lugar várias vezes.
Galvão alertou para o perigo de contaminação da água pelas fossas. "Elas muitas vezes são rudimentares e dependendo de onde são construídas podem contaminar os poços de água. E quando a pessoa não tem um poço, ela armazena água em vários lugares criando outro problema: o mosquito da dengue", comentou o coordenador.


