À primeira vista, parece impensável que os frágeis arco e flecha lapidados artesanalmente em bambu consigam ser algo mais do que um arco e uma flecha feitos de bambu. Mas nas mãos dos alunos da Associação Kaiko - Centro de Estudos de Artes Marciais de Londrina, esse conjunto ganha outra dimensão e se transforma na arte do ''Kyudo'', ou arquearia zen, numa tradução simplista. Incorporando conceitos que remontam ao Japão antigo, a meta dos praticantes não é a precisão de se atingir o centro de um alvo a uma certa distância; eles miram um desafio muito mais ambicioso: atingir a si mesmos, num processo de auto-conhecimento contínuo que não se encerra quando a aula termina.
A Associação surgiu há 23 anos pelas mãos do mestre Cassiano Joaquim Gomes, um brasileiro de 47 anos que aos quatro foi parar do outro lado do mundo para viver com uma família japonesa. Um ano mais tarde, foi enviado para um mosteiro xintoísta (a religião nativa do Japão). Lá ficou por 26 anos e recebeu como legado ensinamentos aprofundados sobre filosofia oriental e diversas artes marciais. Quando as saudades do Brasil apertaram o coração, ele afivelou suas malas e retornou para a terra ensolaradamente tropical, a qual não pretende mais deixar.
Há pouco mais de três anos, Cassiano deu início às aulas de ''Kyudo''. O mestre ensina que a arqueria japonesa instiga o aluno a perceber sua individualidade sem perder a sensibilidade de que é parte da sociedade. ''É ser um mundo dentro do mundo'', filosofa. O filho, Cássio Gomes, trilha a sabedoria do pai e, nas apresentações, participa como alvo. Isso mesmo: Cassiano lança a seta para o filho pegar, antes de ser atingido.
Um dos primeiros alunos das aulas de arquearia foi o engenheiro civil carioca, David Lima de Araújo, 53 anos. Influenciado pelo filho adolescente, ele e a esposa, Silvia Araújo, 59 anos, também engenheira, começaram a praticar o ''Kyudo'' e se apaixonaram pela arte marcial, considerada por muitos uma das mais puras. E a paixão foi tamanha que o homem acostumado com a exatidão dos cálculos virou escultor: é ele quem confecciona os arcos seguindo regras ancestrais, que incluem até ''conversas com o bambu'' durante a colheita da matéria-prima. ''Minha vida mudou. Passei a ter mais perseverança, auto-disciplina, paciência e menos estresse'', agradece David. Sua esposa também só tem elogios ao ''Kyudo'': ''A gente aprende a ver as coisas de outra forma, com muito mais tranquilidade''.
Mudanças semelhantes também ocorreram com os alunos mais jovens. ''É uma cultura nova, que foi boa para eu pensar melhor sobre as coisas'', garante Janaina Fernandes da Silva, de 18 anos, que há três meses frequenta as aulas de arquearia. ''Antes, eu pensava que mexer com arco e flecha era só pegar e atirar. Quando comecei a fazer, vi que era bem diferente. É mais meditação'', explica com segurança o mascote da turma, Luis Carlos Alves da Silva, de apenas 9 anos.
A ansiedade e pressa típicas da adolescência se tornaram coisas do passado para Isadora Pellegrini, de 16 anos. O gênio explosivo, diz a garota, perdeu espaço para a persistência e a paciência. ''Aprendi a ter mais calma, a não desistir, a ter garra'', garante a menina, que pratica arquearia na companhia da mãe, a jornalista Maria Angélica Abramo. Sofia Assaf Pellegrini, 12 anos, prima de Isadora, garante que o ''Kyudo'' também mudou sua vida para melhor. E ela gostou tanto da arte que, algumas vezes, ''deixa de sair com as amigas para não faltar às aulas''. Em apenas duas semanas praticando arquearia, o estudante Rui Aparecido, 12 anos, viu a agitação e as brigas em casa se transformarem em calmaria. ''Minha irmã menor é que está adorando'', brinca o menino, com o jeitão tipicamente adolescente.

mockup