Klaus Kaphan, que veio em 1936,
conta como foi o começo de tudo

Marcos BorgesKaphan: ‘Sofremos discriminação’‘‘Da viagem de navio, lembro-me muito pouco. Cheguei ao porto de Santos com dez anos de idade, e hoje tenho 70. Minha família, perseguida no Leste da Alemanha - região que hoje faz parte da Polônia -, veio inteira: meus pais e duas irmãs. Quando chegamos em Rolândia, em 1936, isto aqui era uma mata fechada e linda.
‘‘Compramos uma fazenda com 114 alqueires e meu pai construiu nossa casa de peroba, que é esta mesma em que mora hoje uma filha minha. Meus pais trabalharam e sofreram muito, como se pode imaginar. Já para uma criança, como eu, tudo era festa, alegria e aventura.
‘‘Inicialmente, tínhamos 60 mil pés de café. Minhas irmãs e eu crescemos, casamos. Tive quatro filhos e tenho 12 netos. Os negócios também deram certo e cresceram; hoje temos outras fazendas. No começo, as maiores dificuldades foram a língua diferente, a mata, a falta de escola, de infra-estrutura. Tudo era muito diferente da Europa e da Alemanha.
‘‘Houve muitas discriminações e restrições sociais e políticas aos judeus-alemães no Brasil, antes, durante e depois da Grande Guerra (1939-45). Para andarmos de ônibus - as antigas jardineiras - ou de trem, tínhamos que ter salvo-conduto expedido pela polícia. Era proibido falar em alemão em lugares públicos. Muitos desistiram do trabalho duro na lavoura, venderam suas terras e foram embora para Curitiba, São Paulo e outros países. Nós fomos ficando e não nos arrependemos. Meus pais, já falecidos, foram muito felizes aqui em Rolândia e no Brasil.
‘‘Tenho dupla cidadania, mas me sinto um brasileiro por inteiro. Nunca voltei e nem tive vontade de voltar à Alemanha. Aquela história toda do nazismo, de Hitler, do sofrimento dos judeus foi muito triste. Não me identifico como alemão, não simpatizo com a Alemanha. Achei melhor não voltar lá, nem para passeio.
‘‘Estou muito bem no Brasil, somos completamente felizes aqui, apesar dos problemas e dificuldades, que existem em qualquer parte do mundo.’’
(Depoimento dado ao
repórter Osmani Costa)

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