Em época de mensagens eletrônicas e cartões virtuais, é raridade encontrar quem tenha em casa - devidamente guardados - fotos e documentos antigos, ou mensagens escritas no início do século passado. A professora aposentada Kilda Gomes do Prado Gimenez, 81 anos, porém, nunca questionou a importância de guardar as memórias da família e os registros dos acontecimentos que pontuaram cada momento de sua vida. Pacientemente, como quem junta as peças de um grande e intrincado quebra-cabeça, ela também preparou uma relíquia para seus descendentes: uma árvore genealógica contendo aproximadamente 60 nomes.
Para chegar a todos eles, Kilda não mediu esforços. Viajou, mergulhou em incansáveis pesquisas, visitou igrejas e museus. ''Quando meus filhos eram pequenos, meu marido ia para o Jóckey com eles e eu, como nunca fui muito de sair por causa dos meus problemas de saúde, ficava em casa pesquisando, organizando documentos e fotos'', conta, referindo-se à esclerose múltipla que, na época, ainda não tinha sido diagnosticada.
Tudo começou com uns antigos cadernos, onde a professora resolveu, no início da década de 60, registrar passagens da vida dos filhos. ''Quando eles cresceram, pediram para eu fazer o mesmo com os filhos deles, e eu fui fazendo.'' O resultado foram álbuns da vida de toda família, que somam 150 biografias. Ela contabiliza o resultado: 19 álbuns de familiares (10 netos, 4 filhos, pai, sogro e dois avós), incluindo o que fez para ela e o marido; dois sobre o Colégio Londrinense; um só com os cartões de natal que recebeu nos últimos anos; um de recortes de jornais; um da Escola Normal onde se formou; outro do supermercado que foi da família; uns ''três ou quatro'' sobre a história de Londrina, e assim por diante.
A professora - que chegou a Londrina em 1940 e acompanhou o crescimento da cidade - nunca parou para contar de fato quantos álbuns montou. ''Tudo o que eu imaginava que fosse importante, como discursos, cartas, telegramas, eu guardava. Quando menina, eu carregava minhas coisinhas em uma maleta. Pensava que, se um dia pegasse fogo na minha casa, eu conseguiria salvar meus papéis, livros. E de fato o incêndio aconteceu, várias fotos da minha mãe foram perdidas.'' Mas as preciosidades da jovem escaparam das chamas.
Entre as relíquias guardadas por Kilda está um caderno de poesias que sua mãe escreveu na adolescência - e que um dos filhos reproduziu em brochuras que foram distribuídas para a família. A data dos primeiros escritos é 1917.
Nas biografias preparadas pela mãe e avó zelosa tudo é rico em detalhes. Junto com o nome, filiação e data de nascimento vêm data do batizado, nomes dos padrinhos, dos avós, dos irmãos, data de casamento, de falecimento. Um histórico completo, como define a própria Kilda.
Os ''dossiês'' montados pela professora servem constantemente como fonte de pesquisa de professores e alunos das universidades. Ela não esconde o orgulho: ''Fico feliz quando alguém se interessa pelo meu trabalho.'' Este ano, a professora pretende dar acabamento e corrigir pequenas falhas detectadas em alguns álbuns. Na sequência, vai entregá-los a destinos que aos poucos está definindo. ''Alguns vão ficar na família, outros vou entregar para museus, bibliotecas'', revela.
Kilda, que sempre achou importante conhecer e guardar as informações sobre os antepassados, sabe que dificilmente alguém vai dar continuidade ao seu quase obsessivo trabalho. ''O que eu fiz acho que ninguém faz. É muita loucura''.

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