Kaingangs recebem R$ 2,8 milhões de indenização
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quarta-feira, 13 de dezembro de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
O dia poderia ser de pura comemoração, mas foi a cautela que imperou entre os índios Kaingang da reserva Apucaraninha, em Tamarana (60 km ao sul de Londrina). Ontem à tarde, a Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel) depositou em um fundo destinado à comunidade indígena a primeira parcela da indenização por danos ambientais provocados pela usina hidrelétrica de Apucaraninha. Foram R$ 2,8 milhões.
É dinheiro para mexer com a imaginação de qualquer um. A julgar pelo discurso das lideranças da aldeia, entretanto, os delírios consumistas darão espaço para projetos de relevância coletiva. ''Pensamos em distribuir parte do dinheiro entre as famílias, mas achamos melhor investir tudo em projetos para nosso povo. Cada um vai dar sua idéia. Ainda tem que discutir muito antes de decidir o que será feito'', ponderou o cacique Juscelino Vergílio.
O valor total da indenização é de R$ 14 milhões, dos quais 20% foram depositados ontem e o restante dividido em cinco parcelas a serem liberadas anualmente, até 2011. Conforme ficou definido no Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado em outubro, o fundo indenizatório será gerido pela comunidade indígena e pela própria Copel, sob fiscalização da Funai e do Ministério Público Federal (MPF).
A prioridade do povo de Apucaraninha, de acordo com seu cacique, é investir em agricultura. Hoje a produção é quase toda voltada à subsistência, baseada nas culturas de milho, arroz e feijão. Planejamento e recursos são escassos. ''Temos apenas três tratores para mais de 200 trabalhadores. O jeito é plantar com matracas, às vezes emprestar uma colheitadeira na vizinhança. Até hoje ninguém morreu de fome, mas com mais maquinário poderíamos vender a produção para fora'', afirmou. A tecnologia também se faz necessária para otimizar o pouco espaço disponível para plantio. Ele representa cerca de 30% dos 2,6 mil alqueires de área total da reserva e já está saturado.
Outra iniciativa que deverá constar nos projetos é a implantação do ecoturismo na aldeia, aproveitando as belezas naturais que a cercam. A vista distante de um salto de 116 metros e um passeio pela mata nativa até o Rio Apucaraninha (que permite apreciar bem de perto um salto menor e suas corredeiras) já são atrações turísticas do lugar, mesmo sem infraestrutura.
''Podemos montar uma pousada, treinar o pessoal para ser guia, melhorar as trilhas, sem destruir o meio ambiente'', considerou Vergílio. A idéia parece empolgar a comunidade: ontem pela manhã, no meio da praça da reserva, um grupo de rapazes Kaingang podia ser visto reunido em volta de uma mesa, contemplando um cartaz de propaganda sobre turismo ecológico no Paraná.
''Temos que investir em coisas que dão certo e contar com apoio técnico, tanto na agricultura quanto em outros projetos. Não adianta querer fazer um monte de coisas ao mesmo tempo e perder tudo depois'', alertou Aparecido Marcolino, do Conselho Indígena do Paraná. Com os pés no chão, ele acredita que o momento é de planejar bem o futuro e não esquecer que os indígenas ainda têm muitas lutas pela frente.
''Essa com a Copel foi a menor. Estamos há anos tentando recuperar terras que perdemos e nosso objetivo é ampliar para 12 mil hectares. Também estamos na briga contra a Usina Mauá, que irá prejudicar todos os povos da bacia do Tibagi. A luta do índio não tem fim'', concluiu.


