Justiça manda soltar sem-terra no Sudoeste
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quinta-feira, 10 de agosto de 2000
Paulo Pegoraro De Cascavel 
O juiz Mauro Mondim da Comarca de Quedas do Iguaçu (165 km a leste de Cascavel) determinou, na tarde de ontem, a soltura de Jacir Lazaretti, 34 anos, e Claudemir Torrente Lima, 19 anos, coordenadores do acampamento de 1,3 mil famílias de sem-terra da área conhecida como Bacia (de 5 mil hectares), naquele município. Eles haviam sido presos há três semanas, enquadrados pelo delegado de Polícia Ítalo Biancardi Neto na Lei de Segurança Nacional, formação de quadrilha e outros crimes. Na manhã de ontem, o caso havia sido denunciado em Brasília à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
A prisão provisória dos dois coordenadores revoltou os acampados. O Movimento dos Sem Terra (MST) e a Comissão Pastoral da Terra (que formalizaram a denúncia ontem em Brasília) vinham denunciando o caso como envolto em arbitrariedade, ilegalidade e perseguição ideológica de parte da Polícia. A origem está em declarações do casal Jovelino da Silva, 61 anos, e Maria da Silva, 50, em 20 de maio, no 6º Batalhão de Polícia Militar (6º BPM) de Cascavel.
Jovelino e Maria, que perteceram ao acampamento, teriam procurado o 6º PM espontaneamente para relatar que fugiram da Bacia por terem recebido ameaças de coordenadores, aos quais acusaram de crimes como tortura, cárcere privado, estupro de menores, e manter no local armamento pesado. O MST aponta o casal como laranja dos latifundiários e da Polícia. As acusações foram repetidas ao delegado de Quedas do Iguaçu, e deram base para Ítalo Biancardi Neto pedir à Justiça a prisão temporária de 22 coordenadores.
Dos mandatos, apenas dois foram cumpridos, contra Jacir Lazaretti e Claudemir Lima. No final de julho, as irmãs menores C.R.Q., 14 anos, e L.R.Q, 15, e E.R.S, 15, citadas por Jovelino e Maria como testemunhas dos crimes no acampamento, negaram as acusações. As menores alegam que receberiam R$ 10,00 do casal para denunciar o MST.
Ontem, a Justiça determinou a soltura dos dois coordenadores, acatando a alegação do MST de que o delegado foi parcial na condução inquérito, realizado de forma absolutamente irregular, inclusive com o absurdo enquadramento na Lei de Segurança Nacional e prática de crime organizado. A advogada Andréia Indalêncio relatou que está sendo pedida a reconsideração da ordem de prisão provisória contra os outros 20 sem-terra. Nenhum deles tem qualquer antecedente criminal.
O delegado Ítalo Biancardi Neto afirma que não ouviu o desmentido das três menores porque elas podem se manifestar mais tarde, em juízo. Biancardi assegura que elas vieram espontaneamente depor, e nega acusação do MST de que tenham sido ouvidas de forma irregular sem a presença dos pais.
Segundo o delegado, há vários outros depoimentos que ratificariam as acusações. Por isso o que as garotas agora possam dizer nada se altera no curso do inquérito, alegou.


