Paulo San Martin
De Londrina
Especial para a Folha
A Justiça Fede ral começou a investigar os su postos suicídios em massa de ín dios guaranis e kaiowás, que ocorrem há mais de 10 anos na Re serva Indígena de Dourados, no Mato Grosso do Sul. No período, mais de 300 índios morreram enforcados ou por ingestão de veneno. Só no primeiro semestre de 1999 já aconteceram 15 casos. Há suspeitas de que parte deles são homicídios disfarçados como suicídios.
A intervenção da Justiça Federal foi determinada este ano, em Brasília, por indicação da Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Mas só há duas semanas chegou aos seus primeiros resultados concretos. Baseada em investigações realizadas pelo procurador federal Silvio Amorim, a Justiça do Mato Grosso do Sul determinou a reabertura de dois processos que estavam arquivados como ‘‘suicídio’’.
‘‘Minha argumentação para pedir o desarquivamento dos casos baseou-se em falhas no laudo necroscópico e nos depoimentos de amigos e parentes das vítimas’’, afirma o procurador. Nas próximas semanas, com ajuda da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Polícia Federal, a Justiça tentará descobrir o local exato onde os corpos foram sepultados dentro da reserva indígena para realizar a exumação dos cadáveres.
O legista Nelson Massini, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, indicado pelo Ministério Público para cuidar do caso, deverá emitir um novo laudo. ‘‘Nos últimos anos cresceram muito os rumores de que parte destes supostos suicídios são homicídios disfarçados. Esta dubiedade de versões cria um clima de impunidade. Comprovadamente, sabemos que existem muitos casos de suicídios e nem isso se resolve. Todo mundo sabe que estão se matando, mas ninguém interrompe o processo’’, diz Massini.
A possibilidade de que muitas das mortes sejam homicídios faz parte de uma novela macabra. Os autores dos assassinatos seriam integrantes da chamada Polícia Indígena ou Conselho Indígena, reconhecida pela própria Funai como uma excrescência da organização indígena brasileira, motivado por brigas pela posse da terra no interior da reserva.
A questão de terras ali é grave. Nove mil índios, quatro mil dos quais das etnias guarani/kaiowá, dividem e disputam os 3.500 hectares de terras da aldeia, confinada entre bairros da periferia de Dourados, fazendas e às margens da rodovia.

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