O apelido vem dos anos 40, no Rio de Janeiro. Na época, os fotógrafos ambulantes - ou retratistas - tinham uma técnica curiosa para garantir a qualidade das fotos: passavam a língua nos negativos, ainda que no meio da rua e em plena luz do dia. Nascia ali a figura do ‘‘lambe-lambe’’.
Pouco tempo depois, novas técnicas surgiram. Muitos fotógrafos deixaram de lamber as fotos mas o apelido ficou. Ainda hoje, apesar de toda inovação tecnológica, não é difícil encontrar fotógrafos lambe-lambes nas praças das maiores cidades. São poucos, a maioria idosos, que resistem ao tempo e ao preconceito. Mas continuam em atividade.
Em Londrina, os primeiros lambe-lambes chegaram ainda na metade da década de 40. José Maria e Eugênio Pelá, os dois já falecidos, são considerados os pioneiros na profissão. O terceiro foi Luiz Juliani, hoje com 74 anos, que ainda está em atividade. Ele é filho do primeiro fotógrafo da Cidade, José Juliani, morto em 1976 aos 80 anos.
Luiz Juliani trabalha no mesmo local - esquina da Rio de Janeiro com Alameda Miguel Blasi, ao lado da Catedral - e com o mesmo equipamento há exatamente 53 anos. Ele nasceu em Nova Europa, interior de São Paulo, e chegou a Londrina junto com a família, em 1933. Doze anos depois, o pai teve a idéia de iniciá-lo na atividade, colocando uma máquina na praça.
‘‘Na época não tinha muito amor pela profissão, porque é difícil o filho ter a mesma ocupação do pai. Mas depois o serviço começou a aumentar passei a gostar’’, recorda Juliani. Segundo ele, o melhor período para os fotógrafos ambulantes foi entre 1949 e 1952.
‘‘Dava para viver tranquilamente. Em 51, por exemplo, cheguei a ganhar 30 salários mínimos. Era um salário maior do que o do juiz do Fórum’’, diz. A boa remuneração permitiu que sustentasse com facilidade a família - ele casou, criou os cinco filhos e hoje tem 13 netos. Tanto que nunca se preocupou em acompanhar a evolução tecnológica do setor fotográfico.
A popularização das máquinas fotográficas, no entanto, a partir da década de 70, acertou em cheio a profissão e fez diminuir muito o movimento. Já era possível comprar máquinas compactas e baratas. Na década seguinte, vieram as fotos coloridas, que iriam acabar de sepultar as esperanças de um futuro melhor para os lambe-lambes. Hoje, o movimento despencou e são poucos os clientes que têm coragem de parar no meio da praça para tirar um retrato.
Juliani conta que nos bons tempos Londrina chegou a ter mais de 15 lambe-lambes em atividade. Atualmente são apenas nove, que resistem heroicamente. ‘‘Cinquenta por cento deles teve que desistir porque não conseguiu sobreviver com a profissão. Acho que este ano mesmo o número deve cair bastante. Eu mesmo estou pensando em parar. A sorte é que sou aposentado, porque senão estaria difícil continuar trabalhando nesta profissão’’, lamenta.Dorico da SilvaPermanênciaLuiz Juliani trabalha no mesmo local, ao lado da Catedral, e com o mesmo equipamento, há exatamente 53 anos. Ele lembra que em 51 já chegou a ganhar 30 salários mínimos: ‘‘Nos bons tempos, Londrina chegou a ter 15 lambe-lambes’’.Lúcio Horta

mockup