O Tribunal do Júri condenou nesta segunda-feira (27) Emília Terumi Fujihara, 27 anos, a 10 anos e 10 meses, e Valnei Francisco e Silva, vulgo "Esquilo", a 10 anos de reclusão em regime fechado pela tentativa de homicídio praticada na madrugada do dia 17 de abril de 2016 na Estrada da Mandassaia, na zona rural de Tamarana (60 km de Londrina), contra Márcio Henrique da Silva, marido da ré. Segundo a Polícia Civil, o crime contou com a participação de um jovem de 28 anos, identificado como Samuel Pereira dos Santos, e um adolescente. Eles teriam sido contratados por Francisco para executar a vítima.

De acordo com o delegado William Douglas Soares, na época titular do 3º Distrito Policial (DP) e responsável pelas investigações, Emília inventou um motivo para levar o marido até a casa da mãe dela, em um sítio na região rural. No meio do trajeto, quando acessaram uma estrada secundária entre o final da noite de sábado e o início da madrugada de domingo, o casal foi abordado por Francisco e os dois comparsas, que o levaram para uma ribanceira situada nas proximidades.

A dupla convocada por Francisco amarrou Silva, obrigando-o a ficar de joelhos. Ainda segundo o delegado, eles utilizaram uma arma carregada com munição calibre 22 e atiraram, mas erraram o alvo. Logo depois, dispararam mais uma vez, acertando então a clavícula direita de Silva. Foi então que, conforme a polícia, os quatro acusados separaram-se. Enquanto Emília levou Francisco para sua casa, Santos e o adolescente seguiram para o distrito de Lerroville, que fica ao lado de Tamarana.

Mesmo atingido, Silva rolou pela ribanceira e andou por aproximadamente quatro horas até encontrar um sítio. Assustados com a cena, os proprietários do local chamaram a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros. A vítima sobreviveu após ficar internada no Hospital Universitário (HU). Na manhã seguinte ao ocorrido, Emília e Francisco foram detidos em flagrante pela PM. Dois dias após a emboscada, Santos e o adolescente, também condenados no júri de segunda-feira, foram presos por policiais civis.

Interrogatórios

Presa há oito meses na carceragem do 3º DP (Jardim Bandeirantes), Emília chorou ao lembrar do caso durante interrogatório à juíza da 1ª Vara Criminal, Elisabeth Kather, mas segurou as lágrimas em vários momentos quando advertida pela magistrada. Ela negou que seria a mandante do assassinato do marido, com quem tem uma filha de quatro anos. "Ele era muito agressivo", disse. Apesar de confirmar as agressões, a acusada disse que nunca registrou um boletim de ocorrência na Delegacia da Mulher "porque amava e tinha medo de prejudicar o companheiro".

No perído em que separou-se por um mês da vítima, Emília confessou que tinha "ficado" com Francisco, mas disse que não manteve o rápido relacionamento. Ela afirmou que "confiava" muito no amante. "Na época, ele (Francisco) comentou que 'iria dar um susto' no Márcio, mas eu falei pra deixar tudo quieto". Emília contou à Justiça que "só ficou sabendo que o marido tinha sido internado no hospital pela Polícia Militar".

Francisco

Logo depois, foi a vez de Valnei Francisco apresentar sua versão do caso. Ele, que já foi condenado por furto e hoje está preso na Casa de Custódia de Londrina (CCL), confirmou o namoro com Emília. "Ficamos dois meses juntos. Ela me disse que tinha o desejo de separar, mas o Márcio não aceitava. Eu queria manter esse relacionamento, e disse à ela que 'ia dar um susto' nele (Márcio)".

Para garantir que cumpriria com a ameaça, Francisco convocou o adolescente, que chamou Samuel dos Santos. "Eu não tinha a intenção de matar. Não era pra nem ter a arma. Eu não sabia que o garoto estava armado. Quando o Márcio entrou no carro, falei que íamos dar um volta. Nós pedimos pra ele descer do veículo, aí o menino ficou assustado, não sei o que aconteceu", observou.

Depois dos disparos, Francisco afirmou que "ficou apavorado", deixou os comparsas em Lerroville e foi para a casa de Emília. "Ela ligou perguntando o que tinha acontecido. Eu fui pra lá e terminei preso pela polícia na manhã seguinte". Na CCL, Franscico informou que está lendo um livro de Pedro Bandeira "para remir a pena".

A vítima

Interrogado pelo Ministério Público, Márcio Henrique da Silva, que sobreviveu à emboscada, disse pensar que "Emília era uma esposa fiel. Antes de irmos à casa da mãe dela, fomos à praça com nossa filho, chupamos um sorvete e curtimos esse momento em família". No deslocamento até a região rural de Tamarana, na bifurcação com a Estrada do Pari-Paró, ele foi abordado por Francisco, Santos e o adolescente, que estavam em um veículo que vinha em sentido contrário.

"Eu nem desci do carro e já vi um deles com a arma na mão. Fiquei sem reação. A princípio, pensei que se tratava de um assalto, mas estranhei porque o Francisco ficou conversando com a Emília. Eu até cheguei a pedir que os supostos assaltantes não fizessem nada com a minha esposa e filha", contou Márcio.

Já com os criminosos, a vítima lembrou que "em nenhum momento tentou reagir. Não pensei que eles iam atirar para me matar. Enquanto o Francisco abria o caminho na frente, os outros dois ficavam atrás. Desconfiei do engano em que me meti quando o adolescente me perguntou: 'Qual é o teu lance com a Emília'?. Foi aí que eu ouvi dois tiros, mas um só me acertou".

Com o impacto do projétil, Silva confessou "ter apagado e rolado ribanceira abaixo". Minutos depois, ao abrir os olhos, ele disse ao promotor que 'viu uma luz de longe. Daí eu percebi que estava vivo. Apesar de sentir uma dor terrível no corpo, fiquei quieto e permaneci imóvel. Tive medo deles perceberem que eu não tinha morrido. Bebi água de um riacho perto, andei vários quilõmetros e achei socorro em um sítio próximo".

Por ter sido baleado, Silva assegurou que ficou mais de um ano sem locomover o braço direito, ferido após o disparo. "Hoje eu não consigo levantar peso. Preciso de mais duas cirurgias para chegar perto do movimento ideal. Gastei mais de seis mil reais só nos deslocamentos de um especialista pro outro". Apesar da filha com Emília, ele garantiu que não irá reatar o casamento.

mockup