Juiz ameaça soltar presos dos distritos
PUBLICAÇÃO
domingo, 18 de maio de 1997
Paulo Ubiratan 
O juiz da Vara de Execuções Penais e corregedor das cadeias de Londrina, Roberto Ferreira do Valle, ameaça soltar os presos não condenados a partir desta semana, se o governo do Estado não tomar providências urgentes para diminuir a superlotação e aumentar a segurança nos Distritos Policiais da Cidade. Ele pede que a Secretaria de Segurança Pública do Paraná aumente o número de celas e a Polícia Militar faça a segurança externa dos DPs. A declaração foi dada pelo juiz depois de controlada a rebelião ocorrida no 3º DP, localizado no jardim Bandeirantes (zona oeste), na tarde de sábado.
Durante a rebelião, que começou por volta das 14h30, 75 presos ameaçavam matar cinco outros detentos - presos por estupro -, caso não fossem tomadas providências para diminuir a lotação das celas, a truculência policial e acabar com os privilégios dos presos de confiança. Os rebelados exigiram a presença do juiz. As seis celas do distrito, com capacidade para apenas 24 presos, foram parcialmente destruídas e a maioria dos colchões incendiada.
Roberto do Valle chegou ao 3º DP às 16h30 e mostrou-se indignado, perguntando com ironia onde estavam o secretário de Segurança Pública, Cândido Martins de Oliveira, e o comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar, Marino Ari Burille. Vim até aqui por princípios humanos, por dever de cidadão e profissional, no entanto não vejo o doutor Cândido nem o comandante (Ari Burille) para nos ajudar a sair dessa situação, afirmou. Ele havia prometido que não iria mais interferir em problemas dos DPs, enquanto não fosse derrubada a liminar concedida pelo Tribunal de Justiça (TJ), que o proíbe interditar os distritos. Segundo ele, o problema dos DPs é exclusivo da Secretaria de Segurança. Para derrubar a liminar, o juiz encaminhou ao TJ um recurso que ainda não foi julgado.
Em março, Roberto do Valle interditou o 5º DP porque o local estava com superlotação e sem as mínimas condições de infra-estrutura e segurança. Na mesma ocasião, ele deu um prazo de 30 dias para também interditar o 2º , 3º e 4º Distritos, caso não fossem feitas as reformas necessárias. Na mesma época, Roberto do Valle chegou a ameaçar prender por desobediência o comandante Burille, que se negou a colocar policiais militares nos DPs para fazer a segurança externa.
O secretário Cândido de Oliveira prometeu interceder junto ao comando geral da Polícia Militar e fazer as reformas. Para isto pediu prazo para tomar as devidas providências. Neste meio tempo, a pedido do próprio Cândido de Oliveira, o procurador-geral do Estado, Josué Grotti, entrou com a liminar no TJ, impedindo Roberto do Valle de interditar os outros DPs.
O juiz disse que foi traído pelo secretário, porque o tempo que Cândido de Oliveira pediu não seria para agilizar as reformas, mas para levar no Tribunal a liminar do seu impedimento. Senti-me traído por este senhor (Cândido de Oliveira) e me arrependo de não ter interditado os outros distritos, comentou Roberto do Valle.
A situação do 3º DP só foi contornada por volta das 20 horas quando 44 presos foram levados para o 2º , 4º , e Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). Os outros 36 presos quiseram permanecer no 3º DP. Roberto do Valle enfatizou que o problema da superlotação e a falta de infra-estrutura e segurança dos distritos aumentou, criando uma situação insustentável. Ele afirmou que, se não forem tomadas providências urgentes por parte da Secretaria de Segurança, somente libertando os presos, o problema prisional de Londrina vai amenizar.
O secretario Candido de Oliveira não foi encontrado ontem pela Folha. Seus telefones estavam ligados a uma secretária eletrônica. A reportagem também não encontrou o comandante Ari Burille - o número de seu telefone particular não foi passado pelo 5º BPM.


